Vivo no meio dos livros. Graças a
Deus. E é em casa e no trabalho. Mas que bela companhia! E é também com a
alguma regularidade que vou aos chamados Encontros onde se fala sobre livros. Encontros com os Pais dos Livros. Que são justamente... os Escritores. E posso
dizer que já passaram alguns anos, desde que assisti pela primeira vez a uma
prédica protagonizada pelo jornalista e escritor Fernando Dacosta. Que é "especializado"
em assuntos directamente correlacionados com o Estado Novo. E o homem é de tal
maneira "versado na matéria" e bom comunicador (e também conheceu tanta gente que viveu naquela altura) que foi para mim
um prazer imenso poder ouvi-lo falar.
Naquele dia eu fui acompanhada
por uma amiga que tem a minha idade, pelo meu pai, que é um senhor vinte e oito
anos mais velho do que eu e por um escritor neo-realista de boa memória, mas infelizmente
já falecido. Este escritor neo-realista era na altura, o chefe directo da minha
amiga. E era já um excelente senhor. E já octogenário.
Ora, ante o interesse do tema e o
facto de aquele período de tempo, ter sido vivenciado in loco por parte das pessoas mais velhas daquele meu grupo
restrito, fazia com que existissem por ali alguns curtíssimos comentários, mas em
baixa voz, dos mesmos sobre o assunto. Mas nada que perturbasse grandemente a
necessária audição da sessão. Contudo, duas ou três senhoras que ocupavam os
lugares atrás de nós, sentiram-se muitíssimo perturbadas. E fizeram mesmo questão de se
levantarem e de falarem sobre esse assunto. E à frente de toda a gente. Ou seja,
fez-se uma interrupção, com toda a assistência de olhos postos em nós. E com
aquelas duas, a fulminarem-nos literalmente, com os seus olhares ferozes de
aves de rapina. Pelo sucedido o moderador da altura, também se levantou e pediu muitas
desculpas pelo sucedido. Pedindo desculpas de mote próprio, mas por nós. E
aquele moderador, meus amigos, era o meu chefe.
Considerei que aquele momento
fora um dos mais "vergonhosos" da minha (naquela altura) muito jovem existência. E
se eu tivesse uma toca que fosse, mas onde eu coubesse mais a minha robustez
natural e sexy, na certa que me teria sumido dali. Ou então, se eu tivesse
ali contado com a tal tinta, tinha-me mascarado numa tímida e pacata guineense. Passados alguns segundos intermináveis, a coisa passou e os (nossos) comentários findaram. É que nós os quatro,
demonstrávamos todos um grande empenho, pela continuidade da nossa integridade
física.
Só que eu confesso: aquele
acontecimento ficou-me de emenda. E foi a partir dali, e em similares
situações, que eu jamais ocupo os lugares traseiros. Sei lá eu, se não
comento qualquer coisa, mesmo com desconhecidos? E seja assim chamada novamente
à atenção? E seja outra vez, absolutamente cilindrada pela vergonha? Apesar de, e Graças a
Deus, eu não sofrer muito desse mal? Vergonha, mas o que é isso? Pelo que desde
essa altura, eu coloco-me logo ali à frente. Muito decidida e a oferecer o peito
às “balas”. E agora eu já não falo, nem com quem está ao lado nem com quem está
atrás. Só falo mesmo é com quem está à frente. Sim, se há comentários a fazer,
eu faço-os ali e directamente com os escritores convidados. E curiosamente, eu não me tenho dado
mal.
Foi desta maneira, que
eu entabulei gostosamente, conversação com os mais ilustres escritores desta nossa
"mui nobre praça" literária. Recordo com prazer a conversa mantida com Mário Cláudio.
Esse excelente escritor. Ora foi deliciada,
que eu me apercebi que ele também detesta o “espectáculo” da tourada. Como eu. E
foi com ele que eu raciocinei pela primeira vez, o facto de que os trajes
utilizados pelos toureiros, serem muitíssimo esquisitos, já para não falar que
são deveras… suspeitos. Sim estarem p’ra ali a envergar aquelas leggins tão justinhas e reveladoras? Mas
aquilo serve para quê, Senhores? E depois, com aqueles folhos todos em perfusão.
E os bordadinhos a fio de ouro ou que raio é aquilo? Se eles querem ter assim
tantos contactos com os toiros e com a violência e barbárie daí decorrente,
porque raio é que têm que andar assim vestidos? Estão com isso a querer
transmitir-nos o quê? Coisa boa não deve de ser com toda a certeza.
Foi com o Miguel Real que eu me
ri (e a bom rir), quando no decorrer do encontro, conversamos sobre um
acontecimento muito em voga naquela altura. Quando o Richard Gere ficou proibido de
entrar na India, porque andou para lá, aos beijos a não sei quem. E o que aquilo
rendeu, amigos. E é muito divertido. Poder falar assim sobre causas comezinhas, com alguns daqueles que nos escrevem
tratados para a alma. E que nos fazem "viajar e sonhar".
E com o próprio Fernando Dacosta?
Noutras ocasiões? O que não falámos já sobre a D. Maria? Sim, a que servira de
criada ao Salazar. A que também se comportava, como uma verdadeira preceptora do
governante. Só lhe faltou mesmo… foi dar alguns tautaus. Pelo menos se os houve, eles não estão documentados. Aquela D. Maria que (dentro da sua
rudez natural) sentia um até um certo "carinho" pelo escritor de obras tão interessantes
como “As Máscaras de Salazar” e “O viúvo”.
E o que eu me ri também com o
jornalista escritor Joaquim Furtado? Quando lhe aconselhei, após conversa
periférica com alguns dos presentes, que o que ele agora tinha que fazer, era
um estudo sobre a etiqueta mais em voga, usada pelos ex-combatentes das ex-colónias. Um bocado à semelhança das figuras encrostadas e deliriosas dos
nossos meios televisivos? Com o homem depois, a dizer exaustivamente que não,
com a cabeça e com as mãos. E a recusar-se em absoluto, em ser uma versão
masculina da Paula Bobone?
Pois tudo isto eu falei, amigos.
E se eles me continuarem a der “abébias”, eu continuarei a falar. Os escritores
são parte integrante desta nossa sociedade. São seres atentos e necessariamente
interventivos. São como nós, destituídos de outras reverências bacocas. E
alguns deles até são tão interessantes de serem conhecidos!
Mas existem sempre aqueles (leitores
ou não) que insistem em tratá-los como se os mesmos fossem umas celebridades
intransponíveis. A quem não se deve dizer nada "fora do tom expectante", por reverência. A quem depois consideram
como “deuses” temerosos e distantes. Mas nem toda a gente pensa como eu, é
verdade. E tenho mesmo é que respeitar a diferença.
Só que um dia destes, contámos como
convidado, um escritor médico, da família daquele outro escritor que sendo
também médico, gosta muito de falar com a mão a tapar a boca. E depois nós
ficamos para ali a adivinhar o que é que ele está para ali a dizer. E o que aquele
mano médico ali foi relatar? Chegou mesmo a ser arrepiante a dada altura.
Falava nos casos clínicos extremos. Na ocorrência das chamadas doenças terminais, em que se
tem que lidar directamente, com a eminência, (mais do que certa) da morte. Positivamente... aquele
assunto não era para risos, nem para outras grandes divagações. Eu que adoro
rir. É esse aliás o meu desporto favorito. Nunca o faria com tais temáticas,
por Deus!
Ora, como é então o meu hábito,
(e desde aquela altura) mais uma vez eu fiquei lá à frente. Pois claro. Mas perante aquela temática, eu
fiquei ali muito sossegadita. E a rezar a Deus, para que me fosse possível
manter-me um pouco mais cá por baixo. Sem grandes ralações. Nem visitas aos médicos.
E foi no fim da comunicação, que com
grande espanto meu, eu ouvi o meu chefe dizer-me: “Então o que é que se passa? Porque é que você
esteve aí, sempre tão séria e quietinha?”
Ah pois é! Vai na volta o meu
“patrão” gosta é dos meus comentários. E da outra vez só reagiu, porque as
fulanas de trás, deram em fazer queixinhas.
Sugestão de leitura para esta
semana: “Sinais de Fogo” de Jorge de Sena.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
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