Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Cada um acha prazer onde o encontra.


Invariavelmente… a aventura começa lá pelas cinco horas da madrugada. Na rua, circulavam somente duas ou três pessoas. Que em passo acelerado se dirigiam para as paragens dos transportes públicos. Irão necessariamente para os locais da sua empregabilidade. E onde, de enfregona em riste, elas desenvolverão tarefas iguais a outras que tais, executadas em todos os outros dias de suas vivências.
Mas na paragem mais recôndita, já estavam também três ou quatro senhoras, que coleccionam (cada uma delas), sessenta ou setenta Primaveras. E estavam visivelmente felizes. Abraçam-se e beijam-se muito reconhecidamente. E procuravam no ar, augúrios para um dia que se sonhara, muito bem passado. A elas juntou-se Anabela, que tinha metade dos anos e nenhuma experiência naquele tipo de aventuras. Anabela estava de férias, e devido a alguns cortes orçamentais a que fora sujeita, decidira que naquele ano, ela não iria fazer qualquer viagem mais dispendiosa. Das que ela mais gosta.
E assim, naquele ano atípico, Anabela decidira finalmente levar em consideração, um dos trinta e nove mil prospectos, que lhe punham diariamente no correio. Onde se ofereciam, a troco de muito pouco, muitas viagens de sonho.
Passados quinze minutos, lá apareceu o autocarro prometido. De lá de dentro, saiu um motorista escanhoado, mas com cara de poucos amigos. Na mão, ele agrafanhava duas ou três folhas. E depois de se exprimir num “bom dia” mal disposto, ele desatou a ler num rompante, quatro ou cinco  nomes. Uma a uma, e depois de dizerem o “sim” espectável, lá entraram todas elas, para aquele veículo motorizado. E com um sistema de ar condicionado bastante audível.
Lá dentro já estavam mais duas mulheres. E mais um homem, solitário e gordo. Que cabeceava no acento, aspirando por noites bem melhor dormidas. E as mulheres mais velhas da paragem cumprimentam as outras que ali já estavam sentadas.
Verificadas as condições necessárias, já com toda a gente sentada nos seus lugares, o veiculo lá arrancou. É que era necessário recolher o resto das pessoas, que ocupariam os lugares ainda vagos daquele autocarro. Aquelas oito ou nove pessoas, eram manifestamente insuficientes (e por si só), para produzirem um dia de festa. Com boas e futuras recordações. Pelo que lentamente lá se prosseguiu para mais outras dez paragens recônditas. Muito difíceis de concluir. É que o autocarro era muito grande. E as ruas pequenas. E o estado de espirito era ali tão expectante… Anabela só lamentava para os seus botões, que o autocarro não tinha luz suficiente que lhe permitisse ler, mais dois ou três capítulos do seu livro-acompanhante.
Passadas duas horas e meia, estava finalmente concluída a recuperação das gentes. Que tal como a Anabela, decidiram analisar os papéis de cores brilhantes, que enxameavam as suas respectivas caixas de correio. Onde se prometiam viagens com muita emoção. E a troco de pouco.
Eram sete e trinta e sete, quando o autocarro entrou finalmente na autoestrada. E foi em velocidade cruzeiro. Ou melhor, em velocidade excursionista, para ser mais exacta. Os diálogos foram feitos, banco a banco por quem os ocupava. Em vozes mais ou menos estridentes que apresentavam sem contenção, aspectos vivenciais. Que faziam com que os outros mais silenciosos, se apercebessem de muitas outras tramas e começassem a entrelaçar pedaços de histórias alheias. Mas… mentalmente. Àquelas conversas de vida, entrecruzavam-se outras, onde se dizia expressamente, da enorme felicidade que constitui, o facto de existirem assim viagens, tão boas, tão boas… E a preços tão convidativos. É que aquelas viagens eram-lhes praticamente oferecidas…
E foi mais ou menos por essa altura, que de umas colunas potentes, começou a sair música. Como numa torneira de forte alcance. Zás! E de lá de dentro saía também, a voz potente de uma senhora que lhes comunicava, em jeito de disfrute pleno que: “já lhe haviam ido… ao pacote”. Assim… e sem espinhas! Pelo que no ar ficou a dúvida. Era bem capaz, de se tratar de mais um caso de abuso, aos direitos do consumidor. Abrir assim à bruta um qualquer pacote (de leite por exemplo) sem a necessária autorização do seu real proprietário? Ou da sua proprietária, como parecia ser a situação? Anabela não conhecia ainda aquela artista. Nem lhe conhecia outros êxitos de similar calibre, que a mesma por ali procedeu ad eternum. Tal cantoria, fez com que no autocarro, não se pudessem ouvir em condições, outras histórias de vida. Nem mais palavras de reconhecimento. Ouvia-se somente uma música de duvidosa proveniência. Mas como em tudo, caros amigos… existem sempre aqueles que apreciam.
Fez-se depois uma curta paragem, para libertar líquidos, (ou sólidos, pois ninguém perguntou nada às pessoas que saíram), numa das diversas estações gasolineiras que se espalham um pouco por todo o lado, pelos domínios da Brisa. E depois, já recolhidas as pessoas, o autocarro lá continuou a andar, sempre com grande pujança.
E só passadas mais duas horas, é que o autocarro decidiu sair da via rápida. Onde depois, com alguns avanços e recuos, lá buscou encontrar a primeira paragem. Depois de todas aquelas onde se recolheram as pessoas. E da das “mijadelas”.
Eram dez e trinta, quando o autocarro finalmente estancou numa propriedade longínqua. Os letreiros ali presentes, ofereciam um restaurante. E o ambiente oferecia também, boas e vastas paisagens de verde. Destituídas de outras realizações humanas. E via-se ao longe uma serra imponente. Aparentemente intransponível.
Pouco tempo após, as pessoas, (uma a uma e já com alguma dificuldade, atendendo às mazelas trazidas pela provecta idade), lá saíram do autocarro. A grande maioria delas, procurou mais uma vez os sanitários. E as poucas restantes, procuraram o local onde teria lugar a primeira refeição do dia. Antecipadamente, já duas ou três pessoas, se haviam apresentado como os técnicos responsáveis pelo acompanhamento e distracção daquele grupo informal. Feito à medida e à vontade, de empresas que têm muito mais “longo alcance”, do que aquele que querem deixar transparecer. Afinal está ou não está tudo mais caro? E aqueles senhores ali… são sempre tão bonzinhos? Credo! A fazerem as excursões tão baratinhas!
Paulatinamente, toda a gente lá foi entrando para uma sala, com mesas e cadeiras. E foi servido à descrição, um pequeno-almoço composto por pão fresco, queijo, fiambre e manteiga. Foram servidas também três bebidas, que o freguês pode escolher ou misturar. Café, leite e sumo de laranja. Daqueles sumos conseguidos com um litro de néctar encorpado e de origem duvidosa, ao qual se junta água, E com o mesmo, consegue-se encher, dois ou três camiões cisterna. Os convivas comeram com gana, e depois olharam uns para os outros. E agradeciam quase todos, poder continuar a fazer aquelas excursões. Sempre tão ao alcance dos mais pobrezinhos!…
Passado o tempo da deglutição de tais acepipes, é hora de se passar para a sala do lado. As cadeiras foram irrepreensivelmente colocadas, à volta de uma montra coberta laboriosamente… por panos de cor garrida. Tal qual como se fossem fantasmas galhofeiros e de bem com a vida. E as pessoas, maioritariamente pertencentes à terceira idade, (avaliando pelo prateado dos cabelos, assim como pelas profundas rugas enriquecidas com pó de arroz), sentaram-se à discrição. Mas prefencialmente… lá mais para os lugares de frente. É que assim eles ouvem melhor, não é? E depois também vêm melhor o senhor das vendas. Que é tão simpático mas que está ali só para vender. “Só para quem quiser e poder comprar, como é obvio”. Dirige-se assim e sedutoramente para aquela “sua” exemplar assistência. “E também, só para quem precise do que ali se vende”, ele continuava. “É que ninguém obrigará ninguém a comprar nada”, diz confiantemente aquele homem, que entretanto já havia transmitido também… a sua graça. Comunicava-se-se assim, para toda aquela assistência. Mas também como se acreditasse piamente no que para ali estava a dizer.
E de um rompante são destapados, tachos, panelas, aspiradores, faqueiros de luxo, almofadas, colchões, poltronas de massagens, aparelhos que tremem e fazem tremer… E aquela oferta era tanta e tão aliciante, “que ninguém no se perfeito juízo se dignaria a recusar”. É bombardeado a todo o momento, pela voz canora e muito presente daquele senhor que vende. Mas... depois, há que pagar, claro está.
Anabela contudo… ia resistindo. Ela não queria comprar nada. Não precisava de nada daquilo. Considerava até, que já tinha tudo aquilo que lhe fazia falta… E então em tempos de crise…
Mas o senhor que vende, lá ia continuando. Sempre com aquele mesmo tom de voz. Falava da vida. Das grandes dificuldades vividas “por todos nós”. Falava da mulher, dos filhos que tem e de quem muito se orgulha. E finalmente…  falou de preços. Preços que todos juntos (tais são as preciosidades ali reunidas), poderiam pagar parte considerável da Dívida Pública. É que tudo ali é tão bom… e tão valioso. A dada altura a maioria das velhinhas, parece convencer-se que está defronte dos utensílios utilizados no próprio Palácio de Buckingham. E que são usados e abusados pela própria Isabel II.
E depois de mais duas ou três horas de paleio. E somadas todas aquelas quantias, aquilo dava um resultado imponente. Só que aquele senhor é generoso. Sempre o foi. E ali, defronte daquela assistência a coisa não poderia ser diferente. E passados escassos segundos, aquela conta imponente desce a um terço. Milagrosamente. E assim, ficara uma vez mais provado, que aquelas pessoas são mesmo tão boazinhas!... E foi só depois disso, que o senhor das vendas abandonou a sala, mas de forma dramática. Tal qual a diva maior do Teatro Nacional.
As pessoas olharam-se. As mais experientes… diziam já ter tudo aquilo. Transmitiram-no a todos os outros, inclusivamente. Mas as menos experientes, não. E demonstravam claramente o seu pouco à vontade perante aqueles acontecimentos. Sinais claros, que eram directamente recepcionados, pelos membros restantes daquela equipa de vendas. Que se passarinhavam por ali. E um pouco por toda o parte. Anabela, nada dizia. É que não precisava mesmo nada daquilo. Veio só porque lhe haviam posto no correio todos aqueles prospectos. Que lhe ofereciam assim... viagens de sonho. E a custo de quase nada. Mas do sonho prometido, e até àquele momento, Anabela, ainda não vira nada. “Até ali”, ela concluíra, “teria sido muito mais gratificante, ter ficado em casa”. Ter ficado a dormir. Com toda a certeza ela teria tido muito melhores sonhos que aquele. E quando acordasse, contaria também com um sumo de laranja no frigorífico. E de muito melhor qualidade. Agora ali… Mas ela sabia. Não fora enganada. Todo aquele paleio, fazia parte do “programa de festas”. Pelo que ficou (também não teria outro remédio), para ali a ouvir. E sossegada, ela ficara. Só não comprava… era nada.
Mas agora o senhor das vendas havia-se ido embora. Tinha mesmo saído da sala. Tudo indicava que aquela conversa toda tinha acabado. Finalmente. Pelo que, a Anabela se levantou da cadeira e foi para a varanda fumar um cigarro. E quando ainda não tinha dado três baforadas, que lhe apareceu à frente um outro senhor das vendas. Que lhe pediu encarecidamente, que regressasse novamente à sala. Só por mais dez minutos. É que a assistência delirante, solicitara os preços dos produtos. Individualmente. Anabela entrou outra vez. Convencida que eram somente, mais dez minutos… Mas como a conversa é “como as cerejas”, lá se prolongou. E quintuplicou-se como que por um milagre. E pessoas, umas, à vez lá iam comprando daquilo. E era mais uma almofada lá para casa. Mais uma panela daquelas que não esturra nada. Mais um aparelho dos que treme e faz tremer… Mas mais uma vez, quem não comprava nada era Anabela. Nem aquele senhor idoso e solitário, que ela vira e conhecera no autocarro. Aqueles aparentemente não se vendiam, nem se faziam comprar. E eram senhores plenos das suas próprias decisões.
Depois das panelas e dos colchões, vieram os cremes. Com baba de caracol e de lagartixa. Todos com muito bons preços e de propriedades terapêuticas de elevadíssimo valor. E foi mais uma hora naquilo.
Eram duas da tarde, quando finalmente as pessoas foram ocupar os seus lugares nas mesas onde se serviriam as refeições. Onde se degustaria um leitão, que havia sido tão apregoado por todos. E fora o senhor das vendas que avisara, que ali podiam comer tudo o que quisessem. Só não podiam era levar nada para casa. Dentro de marmitas. Como um outro grupo qualquer fizera.
A sopa indistinta e líquida, desceu velozmente a todos aqueles estômagos esfomeados. Também não se previa que houvesse lugar a muita razão de queixa. É que todos tinham tomado, um substancial e muito proteínico pequeno-almoço. E depois só tiveram que ficar ali, a ouvir todas as prédicas do senhor. Do tal do senhor das vendas. Não haviam por isso feito grandes esforços. Nem muitas caminhadas.
À sopa seguiram-se uns bocados de leitão. Que ninguém pôs em marmitas. Mais umas batatinhas de pacote e uma saladinha de alface. Os vinhos servidos, tinham marcas secretas. De pouca publicidade. E sumo de laranja? Esse era o mesmo do pequeno-almoço. Se calhar sobrara.
E para culminar àquele verdadeiro festim das pupilas gustativas, viria a sobremesa. Numa excelente salada de frutas, conseguida com frutas conservadas em latas. Já bem moles e de indefinido sabor. Mas tudo isso fora pensado, ou não fora? É que aquele pessoal já era dotado (maioritariamente) de dentes postiços.
O café é que não estava incluído na pechincha. Ah pois claro que não! E ali ele fora vendido ao mesmo preço, do praticado na Finlândia.
E quando as pessoas estavam finalmente convencidas que lá pelas quatro da tarde, iriam sair do Restaurante e iniciar (finalmente) o passeio prometido, eis que regressa outra vez, o senhor das vendas. E veio acompanhado de mais uns pacotes. E a ladainha dele, era quase a mesma da manhã. É que aquele pessoal… ali não ganhava nada. Só ganhavam o que vendiam. Coitadinhos! Pelo que agora era mesmo… a recta final das vendas. E usando de um linguajar próprio para crianças, ele lá foi distribuindo por todo aquele que abria a boca, mais umas panelas e tachos. Só não deu nenhuma foi à Anabela. Nem ao senhor obeso. É que nem um nem outro lhe responderam (uma vez que fosse) ao chamamento. E permaneceram ali… de boca bem fechada. Era previsível que, nem um nem outro, precisassem de nada daquilo ali. Mas mesmo que precisassem…
E para culminar, o senhor das vendas lá referenciou, que quem não gostasse daquele fenómeno ali, pois que não viesse mais. Pois aquele era precisamente o seu trabalho. E a equipa que ali estava, só ganhava mesmo o que vendia… Pobrezinhos!
Àquele sermão não encomendado, seguir-se-ia (e finalmente) o passeio de barco. Que teve a duração de cinquenta minutos. De cinquenta minutos, senhores! Porque depois, todos tiveram que ir de novo para o autocarro, para poderem regressar finalmente a suas casas.
Foi isto, o que se conseguiu naquele dia. Com a realização de mais um “maravilhoso passeiozinho… de sonho”. Mas sem baile, como o que era prometido do tal prospecto. Se bem que a Anabela ainda temesse bastante, pela ocorrência de uma última paragem. Por aí, e num pinhal qualquer. Para se poder dar um pé de dança. E para se poderem vender… mais umas panelas…
A Anabela regressou a casa, quando já passava das dez da noite. Depois de um dia de “grande emoção” e com muitas histórias para contar. Ela só não ficou, foi com qualquer vontade de se meter noutra igual. Afinal nem havia sido necessário que o senhor das vendas a “tivesse” alertado para esse efeito. É que fora justamente “aquela viagem”, a que lhe custara quase nada, a mais “cara” de toda a sua (ainda jovem) existência. Pois fora exactamente essa, a mais penosa por que passara.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Vidente” de Lars Kapler.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


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