Invariavelmente… a aventura
começa lá pelas cinco horas da madrugada. Na rua, circulavam somente duas ou
três pessoas. Que em passo acelerado se dirigiam para as paragens dos
transportes públicos. Irão necessariamente para os locais da sua
empregabilidade. E onde, de enfregona em riste, elas desenvolverão tarefas
iguais a outras que tais, executadas em todos os outros dias de suas vivências.
Mas na paragem mais recôndita, já
estavam também três ou quatro senhoras, que coleccionam (cada uma delas),
sessenta ou setenta Primaveras. E estavam visivelmente felizes. Abraçam-se e
beijam-se muito reconhecidamente. E procuravam no ar, augúrios para um dia que
se sonhara, muito bem passado. A elas juntou-se Anabela, que tinha metade dos
anos e nenhuma experiência naquele tipo de aventuras. Anabela estava de férias,
e devido a alguns cortes orçamentais a que fora sujeita, decidira que naquele
ano, ela não iria fazer qualquer viagem mais dispendiosa. Das que ela mais
gosta.
E assim, naquele ano atípico, Anabela
decidira finalmente levar em consideração, um dos trinta e nove mil prospectos,
que lhe punham diariamente no correio. Onde se ofereciam, a troco de muito pouco,
muitas viagens de sonho.
Passados quinze minutos, lá
apareceu o autocarro prometido. De lá de dentro, saiu um motorista escanhoado,
mas com cara de poucos amigos. Na mão, ele agrafanhava duas ou três folhas. E
depois de se exprimir num “bom dia” mal disposto, ele desatou a ler num
rompante, quatro ou cinco nomes. Uma a
uma, e depois de dizerem o “sim” espectável, lá entraram todas elas, para aquele
veículo motorizado. E com um sistema de ar condicionado bastante audível.
Lá dentro já estavam mais duas
mulheres. E mais um homem, solitário e gordo. Que cabeceava no acento, aspirando
por noites bem melhor dormidas. E as mulheres mais velhas da paragem
cumprimentam as outras que ali já estavam sentadas.
Verificadas as condições
necessárias, já com toda a gente sentada nos seus lugares, o veiculo lá arrancou.
É que era necessário recolher o resto das pessoas, que ocupariam os lugares
ainda vagos daquele autocarro. Aquelas oito ou nove pessoas, eram manifestamente
insuficientes (e por si só), para produzirem um dia de festa. Com boas e
futuras recordações. Pelo que lentamente lá se prosseguiu para mais outras dez
paragens recônditas. Muito difíceis de concluir. É que o autocarro era muito
grande. E as ruas pequenas. E o estado de espirito era ali tão expectante…
Anabela só lamentava para os seus botões, que o autocarro não tinha luz
suficiente que lhe permitisse ler, mais dois ou três capítulos do seu
livro-acompanhante.
Passadas duas horas e meia,
estava finalmente concluída a recuperação das gentes. Que tal como a Anabela,
decidiram analisar os papéis de cores brilhantes, que enxameavam as suas respectivas
caixas de correio. Onde se prometiam viagens com muita emoção. E a troco de
pouco.
Eram sete e trinta e sete, quando
o autocarro entrou finalmente na autoestrada. E foi em velocidade cruzeiro. Ou melhor,
em velocidade excursionista, para ser mais exacta. Os diálogos foram feitos,
banco a banco por quem os ocupava. Em vozes mais ou menos estridentes que apresentavam
sem contenção, aspectos vivenciais. Que faziam com que os outros mais
silenciosos, se apercebessem de muitas outras tramas e começassem a entrelaçar
pedaços de histórias alheias. Mas… mentalmente. Àquelas conversas de vida,
entrecruzavam-se outras, onde se dizia expressamente, da enorme felicidade que
constitui, o facto de existirem assim viagens, tão boas, tão boas… E a preços
tão convidativos. É que aquelas viagens eram-lhes praticamente oferecidas…
E foi mais ou menos por essa
altura, que de umas colunas potentes, começou a sair música. Como numa torneira
de forte alcance. Zás! E de lá de dentro saía também, a voz potente de uma
senhora que lhes comunicava, em jeito de disfrute pleno que: “já lhe haviam
ido… ao pacote”. Assim… e sem espinhas! Pelo que no ar ficou a dúvida. Era bem
capaz, de se tratar de mais um caso de abuso, aos direitos do consumidor. Abrir
assim à bruta um qualquer pacote (de leite por exemplo) sem a necessária
autorização do seu real proprietário? Ou da sua proprietária, como parecia ser a
situação? Anabela não conhecia ainda aquela artista. Nem lhe conhecia outros
êxitos de similar calibre, que a mesma por ali procedeu ad eternum. Tal cantoria, fez com que no autocarro, não se pudessem ouvir
em condições, outras histórias de vida. Nem mais palavras de reconhecimento.
Ouvia-se somente uma música de duvidosa proveniência. Mas como em tudo, caros
amigos… existem sempre aqueles que apreciam.
Fez-se depois uma curta paragem,
para libertar líquidos, (ou sólidos, pois ninguém perguntou nada às pessoas que saíram), numa
das diversas estações gasolineiras que se espalham um pouco por todo o lado,
pelos domínios da Brisa. E depois, já recolhidas as pessoas, o autocarro lá
continuou a andar, sempre com grande pujança.
E só passadas mais duas horas, é
que o autocarro decidiu sair da via rápida. Onde depois, com alguns avanços e
recuos, lá buscou encontrar a primeira paragem. Depois de todas aquelas onde se
recolheram as pessoas. E da das “mijadelas”.
Eram dez e trinta, quando o
autocarro finalmente estancou numa propriedade longínqua. Os letreiros ali presentes, ofereciam um restaurante. E o ambiente oferecia também, boas e vastas paisagens de
verde. Destituídas de outras realizações humanas. E via-se ao longe uma serra
imponente. Aparentemente intransponível.
Pouco tempo após, as pessoas, (uma
a uma e já com alguma dificuldade, atendendo às mazelas trazidas pela provecta idade), lá saíram
do autocarro. A grande maioria delas, procurou mais uma vez os sanitários. E as
poucas restantes, procuraram o local onde teria lugar a primeira refeição do
dia. Antecipadamente, já duas ou três pessoas, se haviam apresentado como os
técnicos responsáveis pelo acompanhamento e distracção daquele grupo informal.
Feito à medida e à vontade, de empresas que têm muito mais “longo alcance”, do que
aquele que querem deixar transparecer. Afinal está ou não está tudo mais caro?
E aqueles senhores ali… são sempre tão bonzinhos? Credo! A fazerem as excursões
tão baratinhas!
Paulatinamente, toda a gente lá foi
entrando para uma sala, com mesas e cadeiras. E foi servido à descrição, um
pequeno-almoço composto por pão fresco, queijo, fiambre e manteiga. Foram
servidas também três bebidas, que o freguês pode escolher ou misturar. Café,
leite e sumo de laranja. Daqueles sumos conseguidos com um litro de néctar
encorpado e de origem duvidosa, ao qual se junta água, E com o mesmo,
consegue-se encher, dois ou três camiões cisterna. Os convivas comeram com gana,
e depois olharam uns para os outros. E agradeciam quase todos, poder continuar
a fazer aquelas excursões. Sempre tão ao alcance dos mais pobrezinhos!…
Passado o tempo da deglutição de
tais acepipes, é hora de se passar para a sala do lado. As cadeiras foram
irrepreensivelmente colocadas, à volta de uma montra coberta laboriosamente…
por panos de cor garrida. Tal qual como se fossem fantasmas galhofeiros e de
bem com a vida. E as pessoas, maioritariamente pertencentes à terceira idade, (avaliando
pelo prateado dos cabelos, assim como pelas profundas rugas enriquecidas com pó de arroz), sentaram-se
à discrição. Mas prefencialmente… lá mais para os lugares de frente. É que
assim eles ouvem melhor, não é? E depois também vêm melhor o senhor das vendas.
Que é tão simpático mas que está ali só para vender. “Só para quem quiser e
poder comprar, como é obvio”. Dirige-se assim e sedutoramente para aquela “sua”
exemplar assistência. “E também, só para quem precise do que ali se vende”, ele continuava.
“É que ninguém obrigará ninguém a comprar nada”, diz confiantemente aquele
homem, que entretanto já havia transmitido também… a sua graça. Comunicava-se-se
assim, para toda aquela assistência. Mas também como se acreditasse piamente no que para
ali estava a dizer.
E de um rompante são destapados,
tachos, panelas, aspiradores, faqueiros de luxo, almofadas, colchões, poltronas
de massagens, aparelhos que tremem e fazem tremer… E aquela oferta era tanta e tão
aliciante, “que ninguém no se perfeito juízo se dignaria a recusar”. É
bombardeado a todo o momento, pela voz canora e muito presente daquele senhor que
vende. Mas... depois, há que pagar, claro está.
Anabela contudo… ia resistindo. Ela
não queria comprar nada. Não precisava de nada daquilo. Considerava até, que já tinha
tudo aquilo que lhe fazia falta… E então em tempos de crise…
Mas o senhor que vende, lá ia
continuando. Sempre com aquele mesmo tom de voz. Falava da vida. Das grandes
dificuldades vividas “por todos nós”. Falava da mulher, dos filhos que tem e de
quem muito se orgulha. E finalmente… falou de preços. Preços que todos juntos (tais são as preciosidades ali
reunidas), poderiam pagar parte considerável da Dívida Pública. É que tudo ali é
tão bom… e tão valioso. A dada altura a maioria das velhinhas, parece convencer-se
que está defronte dos utensílios utilizados no próprio Palácio de Buckingham. E
que são usados e abusados pela própria Isabel II.
E depois de mais duas ou três
horas de paleio. E somadas todas aquelas quantias, aquilo dava um resultado
imponente. Só que aquele senhor é generoso. Sempre o foi. E ali, defronte daquela
assistência a coisa não poderia ser diferente. E passados escassos segundos,
aquela conta imponente desce a um terço. Milagrosamente. E assim, ficara
uma vez mais provado, que aquelas pessoas são mesmo tão boazinhas!... E foi só depois disso, que o
senhor das vendas abandonou a sala, mas de forma dramática. Tal qual a diva
maior do Teatro Nacional.
As pessoas olharam-se. As mais
experientes… diziam já ter tudo aquilo. Transmitiram-no a todos os outros,
inclusivamente. Mas as menos experientes, não. E demonstravam claramente o seu
pouco à vontade perante aqueles acontecimentos. Sinais claros, que eram directamente
recepcionados, pelos membros restantes daquela equipa de vendas. Que se
passarinhavam por ali. E um pouco por toda o parte. Anabela, nada dizia. É que
não precisava mesmo nada daquilo. Veio só porque lhe haviam posto no correio todos
aqueles prospectos. Que lhe ofereciam assim... viagens de sonho. E a custo de quase
nada. Mas do sonho prometido, e até àquele momento, Anabela, ainda não vira nada. “Até
ali”, ela concluíra, “teria sido muito mais gratificante, ter ficado em casa”.
Ter ficado a dormir. Com toda a certeza ela teria tido muito melhores sonhos
que aquele. E quando acordasse, contaria também com um sumo de laranja no
frigorífico. E de muito melhor qualidade. Agora ali… Mas ela sabia. Não fora
enganada. Todo aquele paleio, fazia parte do “programa de festas”. Pelo que
ficou (também não teria outro remédio), para ali a ouvir. E sossegada, ela
ficara. Só não comprava… era nada.
Mas agora o senhor das vendas havia-se
ido embora. Tinha mesmo saído da sala. Tudo indicava que aquela conversa toda tinha
acabado. Finalmente. Pelo que, a Anabela se levantou da cadeira e foi para a
varanda fumar um cigarro. E quando ainda não tinha dado três baforadas, que lhe
apareceu à frente um outro senhor das vendas. Que lhe pediu encarecidamente,
que regressasse novamente à sala. Só por mais dez minutos. É que a assistência delirante,
solicitara os preços dos produtos. Individualmente. Anabela entrou outra vez. Convencida
que eram somente, mais dez minutos… Mas como a conversa é “como as cerejas”, lá
se prolongou. E quintuplicou-se como que por um milagre. E pessoas, umas, à vez
lá iam comprando daquilo. E era mais uma almofada lá para casa. Mais uma panela daquelas que
não esturra nada. Mais um aparelho dos que treme e faz tremer… Mas mais uma
vez, quem não comprava nada era Anabela. Nem aquele senhor idoso e solitário,
que ela vira e conhecera no autocarro. Aqueles aparentemente não se vendiam,
nem se faziam comprar. E eram senhores plenos das suas próprias decisões.
Depois das panelas e dos
colchões, vieram os cremes. Com baba de caracol e de lagartixa. Todos com muito
bons preços e de propriedades terapêuticas de elevadíssimo valor. E foi mais
uma hora naquilo.
Eram duas da tarde, quando
finalmente as pessoas foram ocupar os seus lugares nas mesas onde se serviriam
as refeições. Onde se degustaria um leitão, que havia sido tão apregoado por
todos. E fora o senhor das vendas que avisara, que ali podiam comer tudo o que
quisessem. Só não podiam era levar nada para casa. Dentro de marmitas. Como um
outro grupo qualquer fizera.
A sopa indistinta e líquida,
desceu velozmente a todos aqueles estômagos esfomeados. Também não se previa
que houvesse lugar a muita razão de queixa. É que todos tinham tomado, um substancial
e muito proteínico pequeno-almoço. E depois só tiveram que ficar ali, a ouvir todas
as prédicas do senhor. Do tal do senhor das vendas. Não haviam por isso feito
grandes esforços. Nem muitas caminhadas.
À sopa seguiram-se uns bocados de
leitão. Que ninguém pôs em marmitas. Mais umas batatinhas de pacote e uma saladinha
de alface. Os vinhos servidos, tinham marcas secretas. De pouca publicidade. E sumo de
laranja? Esse era o mesmo do pequeno-almoço. Se calhar sobrara.
E para culminar àquele verdadeiro
festim das pupilas gustativas, viria a sobremesa. Numa excelente salada de
frutas, conseguida com frutas conservadas em latas. Já bem moles e de
indefinido sabor. Mas tudo isso fora pensado, ou não fora? É que aquele pessoal
já era dotado (maioritariamente) de dentes postiços.
O café é que não estava incluído
na pechincha. Ah pois claro que não! E ali ele fora vendido ao mesmo preço, do praticado na
Finlândia.
E quando as pessoas estavam
finalmente convencidas que lá pelas quatro da tarde, iriam sair do Restaurante
e iniciar (finalmente) o passeio prometido, eis que regressa outra vez, o
senhor das vendas. E veio acompanhado de mais uns pacotes. E a ladainha dele, era
quase a mesma da manhã. É que aquele pessoal… ali não ganhava nada. Só ganhavam o que
vendiam. Coitadinhos! Pelo que agora era mesmo… a recta final das vendas. E usando
de um linguajar próprio para crianças, ele lá foi distribuindo por todo aquele que
abria a boca, mais umas panelas e tachos. Só não deu nenhuma foi à Anabela. Nem
ao senhor obeso. É que nem um nem outro lhe responderam (uma vez que fosse) ao chamamento. E
permaneceram ali… de boca bem fechada. Era previsível que, nem um nem outro,
precisassem de nada daquilo ali. Mas mesmo que precisassem…
E para culminar, o senhor das
vendas lá referenciou, que quem não gostasse daquele fenómeno ali, pois que não
viesse mais. Pois aquele era precisamente o seu trabalho. E a equipa que ali estava, só ganhava
mesmo o que vendia… Pobrezinhos!
Àquele sermão não encomendado,
seguir-se-ia (e finalmente) o passeio de barco. Que teve a duração de cinquenta
minutos. De cinquenta minutos, senhores! Porque depois, todos tiveram que ir de
novo para o autocarro, para poderem regressar finalmente a suas casas.
Foi isto, o que se conseguiu
naquele dia. Com a realização de mais um “maravilhoso passeiozinho… de sonho”. Mas sem
baile, como o que era prometido do tal prospecto. Se bem que a Anabela ainda temesse
bastante, pela ocorrência de uma última paragem. Por aí, e num pinhal qualquer.
Para se poder dar um pé de dança. E para se poderem vender… mais umas panelas…
A Anabela regressou a casa,
quando já passava das dez da noite. Depois de um dia de “grande emoção” e com
muitas histórias para contar. Ela só não ficou, foi com qualquer vontade de se
meter noutra igual. Afinal nem havia sido necessário que o senhor das vendas a “tivesse”
alertado para esse efeito. É que fora justamente “aquela viagem”, a que lhe custara
quase nada, a mais “cara” de toda a sua (ainda jovem) existência. Pois fora exactamente essa, a
mais penosa por que passara.
Sugestão de leitura para esta
semana: “A Vidente” de Lars Kapler.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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