Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

É pela forma como se trabalha, que se avalia o artista.




É capaz de constituir o cliché mais escandaloso, dizer-se que tudo melhora… quando se faz aquilo que se gosta. Principalmente quando se acha que se tem a profissão certa, e que se não fora aquela, não seria mais nenhuma.
Pois Amélia adora ler, olha que coisa? E para melhorar o seu estado anímico nada melhor do que poder também trabalhar enfiada no meio de milhares de livros. Os seus colaboradores dizem-lhe que em cima da sua secretaria, ela tem por vezes um “muro” de tal maneira imponente, que a poderá defender de qualquer tempestade ou agressão. E é todo composto inteiramente por livros. Que desafiam ali e diariamente a própria lei da gravidade. E como isso é maravilhoso.
Mas… e depois a Biblioteca deverá ser muito frequentada. Ah pois deve. Só assim é que fará sentido. E é então que à Biblioteca acorrem muitas pessoas, das mais diversas proveniências, geográficas e culturais, dos diversos extractos sociais, idade, sexo ou religião… E viva pois a diferença. A interacção conseguida, e desta maneira será muito proveitosa. É que querendo, estaremos sempre todos a aprender. E uns com os outros. E depois a leitura é a receita recomendável para toda a gente. Toda a gente, mesmo.
Ora Amélia considera (e para ela é mesmo ponto assente), que todo o profissional que trabalhe numa Biblioteca se deverá considerar um privilegiado. E de forma simpática, o mesmo deverá saber expor ao leitor (quando a isso é solicitado), tudo aquilo que o mesmo poderá esperar no referido estabelecimento. E se se procura algo sobre um determinado assunto, o profissional deverá de forma objectiva, saber informar sobre o máximo do que ali se encontra. E na escassez de informação, o mesmo deverá saber explicar sobre outros estabelecimentos que eventualmente detenham maior volume de informação. Fazemos assim todos, parte de uma mesma realidade. Somos pois todos parte integrante de um terreno parcelar que com outros tais, completam o conjunto de instituições detentoras do conhecimento global. E só faremos sentido se promovermos interligações com o resto dessa mesma realidade.
Amélia é assim, uma Bibliotecária responsável por uma Biblioteca Pública Portuguesa. Só não está é no atendimento ao público. E só vai aparecendo, quando lhe solicitam a presença. Para poder responder a algo, que o resto da sua equipa, por inerência não poderá (ou deverá) esclarecer. Contudo Amélia nasceu com uma particularidade inacta: acha que o mundo poderá funcionar muito melhor se interagirmos mais uns com os outros. Afinal, não somos estátuas, nem personagens destituídas de humanidade. Pelo que, e muito de vez em quando, a Amélia lá saí do seu gabinete e vem observar in loco aquilo que se vai passando pelo estaminé.
E se por ventura alguém vem ter com Amélia e lhe pergunta qualquer coisa sobre a Biblioteca, aquela profissional jamais responderá para ir ter com a técnica A. que está ao serviço na Sala. E, logo “desavergonhadamente”, ela estabelece um o diálogo prévio. E avisada sobre o que se procura, ela irá mesmo com o leitor, ao local onde está a pretendida documentação.
Nem sempre fará esse serviço da forma mais competente e profissional possível (é que errar é humano), mas é alguém muito esforçada. Que procura melhorar o seu desempenho diariamente. E depois ela verifica, que à custa desse seu modo de ser, ela também não tem ouvido muita reclamação. Tem que se entender que um cliente da biblioteca deverá ser entendido como um outro cliente qualquer. Deverá ser atendido da forma mais eficiente possível e com simpatia. E quem é que não gosta de ser bem tratado?
Mas só que um dia lá na Biblioteca, Amélia conheceu uma jovem com os seus vinte e muitos. Que enfaticamente, procurava algo… sem procurar. A moça andava numa verdadeira azáfama, incompreensível para Amélia. E com muita rapidez ela ia para um lado. Depois e com igual desenvoltura ela lá ia para o lado oposto. Procurando a cota, buscando nas estantes. Mas lamuriando-se sempre por não encontrar. Foi então que Amélia, a tal “abelhuda de serviço”, se abeirou da moça e lhe perguntou:
“Bom Dia. Queira ter a gentiliza de me informar sobre o que procura. Terei todo o gosto em poder ajudá-la.”
A jovem finalmente… estancou. Olhou admirada para a profissional. É que agora já ninguém fala assim. O que é que se estava ali a passar? Mas como a Amélia não se demovia dali, e com um sorriso na cara, a moça não teve outro remédio que lhe responder. Pelo que a custo ela lá informou, sobre o que andava à procura. Era pois de seu interesse, obter informações variadas sobre o concelho onde residia. Que era justamente o concelho onde a Biblioteca estava implantada.
“Nada mais fácil de responder”, pensou Amélia. Tudo o que dizia respeito à informação local, estava reunido no espaço que se denomina de Fundo Local. E ali, há a obrigação de estar toda a documentação que é possível reunir sobre a região. Arrumada por assunto, por datas… Deverão constar ali, todas as publicações que vão saindo sobre o tema. E desde tempos imemoriais. Assim como excertos retirados de publicações periódicas…. Querendo também se podem visualizar jornais antigos (a pedido), porque naturalmente esses estarão em Reserva, para que a sua preservação seja efectiva.
Para além do mais, e nas imediações, também estarão colocadas as publicações nacionais que revelam os dados estatísticos de todas as zonas do país. “É só procurar bem, que se encontra o que se procura”, disse de sorriso na cara, Amélia a Bibliotecária.
E para lhe demonstrar toda a extensão do Fundo Local, Amélia levou (como aliás é seu hábito), a leitora até ao local.
Só que contrariamente ao que era espectável, a leitora continuava na dúvida. Abria um dossier, abria outro. E depois dizia: “Não, não é bem isto que eu procuro”. Depois disso. Ela abria um livro, consultava-lhe o índice. E torcia mais uma vez o nariz. Também tinha sido ao lado. Via as publicações do Instituto Nacional de Estatísticas. E abanava a cabeça em jeito de negação. Definitivamente, a Biblioteca parecia não estar dotada de nada que fosse susceptivel de lhe poder interessar.
A profissional Amélia, já algo descorçoada pela constatação absoluta, que se calhar não tinha ajudado em nada… muito antes pelo contrário… Quem sabe se não havia confundido a leitora ainda mais. E em jeito de conclusão, lá lhe acaba por recomendar.
“Olhe, e uma vez que nada do que está aqui contido lhe parece interessar, tente talvez pesquisar um pouco mais em enciclopédias. Pesquise sobre alguns termos na nossa base de dados, num destes computadores. Consulte ainda a Internet. Quem sabe se num artigo qualquer, não haja referência a uma fonte exacta. Que seja exactamente… essa a temática que procura?”
E com a recomendação, demonstrando mesmo alguma angústia, Amélia preparava-se para deixar a leitora, que permanecia visivelmente insatisfeita. Ia ainda desejar-lhe um bom resto de dia. E que tivesse sorte na busca da informação pretendida... quando a moça, abrindo somente meio sorriso, lhe questiona:
“Mas… e onde é que está o rapaz?”
Foi só nesse momento que se fez luz, na cabecita já algo envelhecida da profissional Amélia. É que Amélia até lhe poderia ter feito o trabalho todo, que isso não seria o bastante. Pois o que a jovem queria mesmo, era ser atendida por N. o rapaz técnico de Biblioteca, que ainda conservava um palminho de cara laroca. E que também arruinava os seus ossos trintões… a fazer surf. Ah pois era!
Há coisas incontornáveis, senhores! Que nem com todo um grau de profissionalismo elevado e posto em acção, poderá satisfazer em pleno, uma legítima cliente… de uma qualquer Biblioteca Pública.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Herói das Mulheres” de Adolfo Bioy Casares.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


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