Quando a vida não nos corre de
feição, a primeira tendência que temos, é a de atribuir responsabilidade a
factores externos. E depois rogamos ao altíssimo, ou a pessoas de virtude, a
resolução de todas as embrulhadas que nos vão condicionando a vida. Mas, e quem
são estas pessoas de virtude? Conhecem alguma?
Sabemos através dos anúncios na
imprensa escrita, da existência de algumas das individualidades que publicitam
os seus serviços. Prometem resolver-nos os mais variados problemas. E juram
poder encontrar por nós: o emprego desejado, o amor que tarda a vir, o aumento
de todos os pénis resfriados e encolhidos, da libertação efectiva das vaginas em
reclusão, do culminar das más influências, assim como a resolução
definitiva dos bicos de papagaio e do mau hálito.
Esses magnânimos indivíduos, são
frequentemente intitulados de Professores. E na sua grande maioria, aparentam
ser de ascendência africana. Isto no caso dos homens. As mulheres de virtude
parecem-me ser, muito mais parecidas connosco. Têm nomes actuais e estão quase
sempre de bem com a vida. Elas que até tiveram necessidade de aumentar (e
muito) os seus seios e unhas. E puseram também, extensões histriónicas nos
cabelos. Falam é somente por um cantinho da boca. E assumem muitas outras
características, que consideram ser imprescindíveis para o desenvolvimento
efectivo da sua/delas, profissão.
Um dia e em viagem, eu conheci
uma certa velhota. Conheci-a é como quem diz… Comecei por conversar com ela.
Mas com o desenrolar da conversação, eu descobri que não simpatizava lá muito
com ela. E a reciproca também era verdadeira. Existem pessoas que são
incompatíveis. Lamento dizer, mas é a mais pura verdade.
Ora num certo dia, e ainda em
viagem, eu ouvi da boca envelhecida da dita idosa, um pregão que rezava assim:
“Estas meninas que parecem ser tão boazinhas, mas na realidade são umas
bruxas.”
Obviamente que eu não me revi naquela
observação e por isso mesmo resolvi não argumentar. Afinal se o fizesse estava a
reconhecer a condição que ela ali me queria atribuir. Além do mais nem o barrete me
servia. Nem aquele lenço preto (ou às bolinhas) que as bruxas costumam usar na
cabeça. Para além disso, se eu respondesse, acho que ainda era pior. A senhora
em causa era muitíssimo mais velha do que eu. E eu apesar a provocação (que
poderia atingir todas as meninas que ali estavam), decidi dirigir-lhe todo o
meu respeito. Ou melhor, a névoa crua e algo desbotada de toda a minha
indiferença. E quem é que me podia garantir que a velhota já não havia recebido
a visita do senhor Alzeimer? Coitadita!
Numa outra ocasião, em data bem
anterior à do conhecimento que acima transcrevi, eu vivi uma experiência que
ainda não tenho qualquer explicação para ela. Ia com os meus pais, fazer
comprar a um grande hipermercado. Tivemos a necessidade de efectuar as chamadas
compras do mês. O meu pai é uma pessoa de linguajar fácil. Péla-se por uma boa
conversa com boatos à mistura (porque não dizê-lo se é verdade). E lá ao longe
ele avistou uma sua querida amiga. Amiga mesmo, nada com outras intenções
contra-indicadas a quem é casado e bem casado há muito ano. E foi assim (e só
num salto), que ele se pôs ao pé da venturosa. E quanto à senhora minha mãe?
Pois nunca gostou nada destas coisas, e ali naquele supermercado, muito menos.
E a mim (e sem saber muito bem porquê), também me desagradou bastante toda aquela abordagem.
A mulher estava ali somente, para comprar umas sardinhas. Mas os peixes e a partir dali,
era o que menos interessava. É que a conversa daqueles dois, nunca mais
acabava! E eu ali à seca. A minha mãe também. E os dois perdidos em falas
intermináveis, entrecortadas com muitas risotas.
Mas de repente, e sem que nada o
previsse, eu comecei a sentir-me mal. Com uma vontade muito grande de “ir ao Gregório”.
Quase a desmaiar. A ver tudo branco. Depois senti a minha temperatura corporal
a subir acentuadamente. Após isso, tão depressa eu tinha frio, como suava em
bica. E tremia, meu Deus, como eu tremia. Pelo que sem alternativa, eu digo ao
meu pai que era tempo daquela conversa acabar. Que de tão distraído que estava,
nem sequer deu conta da minha má disposição. Dei-lhe a conhecer aquele meu
estado, usando de meias palavras, pois não queria ser rude para com a tal
senhora.
Sei dizer que foi muito difícil para
mim, concluir aquele processo de aquisição de víveres. Nem sequer consegui
conduzir o meu carro de regresso a casa, como é habitual. Levou-o o meu pai,
que é somente o condutor mais aselha que eu conheço.
Em casa corri para a cama e ali
fiquei em grande sobressalto. Mas o que é que se passava comigo? Fiquei ali
tolhida, quase sem me poder mexer. Como sou alérgica aos médicos (essa é
efectivamente a minha maior alergia), pedi ao progenitor que fosse à farmácia e
lá relatasse os meus sintomas. Ele muito revoltado, lá foi. Pois o que ele
queria, porque queria, era levar-me para as urgências de um hospital.
Na farmácia, a farmacêutica a
custo lá me receitou uns comprimidos. Ela que achava que eu tinha era que ir
era o mais urgentemente possível ao médico. Pois podia tratar-se de doença
súbita e mortal. Ou podia também ser, uma qualquer febre reumática, que mal
curada, me poderia arrasar e para sempre, o coração. No fim, e muito
contrariada, a farmacêutica lá receitou uns antipiréticos, fazendo prometer ao
meu pai, que se eu não melhorasse nas próximas horas, me obrigasse a procurar
acompanhamento clinico. O meu pai lá prometeu. E ficou também cheio de medo de
me perder. É que eu ainda lhe fazia muita falta.
Tenho a dizer que tomei somente
um comprimido. Mais, quando o meu pai regressou a casa vindo da farmácia, já eu
apresentava claras melhorias. Isto sem ter tomado absolutamente nada. Tomei só
um comprimido, dos receitados, porque depois eu já não tinha qualquer sinal
daquela estranha enfermidade. Passada uma hora, eu já estava como se nada fosse.
Muito mais tarde, informaram-me
que a mulher com que o meu pai tão gloriosamente falara, era uma mulher de
virtude. Já a sua mãe o fora, assim como a sua avó. Mas se calhar a coitada esteve sempre inocente? É que eu tenho tendência em duvidar destas coisas. Pois estas
coisas, (e a meu ver), são muito difíceis de comprovar. Pois em tais circunstâncias,
quem é que testemunha? E quem é aquele que se atreve a acusar? Aproveito para
dizer que aquela virtuosa mulher, quiçá inocente, já não pertence ao mundo dos
vivos.
Só passado algum tempo, é que a
minha tia me disse, que as habilidades daquela natureza se passam, no momento
da morte da antecessora. E mais me disse a titi. Quando a bruxa está a morrer, fá-lo
rodeada pela família. E do nada a moribunda põe-se para ali a pregar: “Eu
deixo, eu deixo, eu deixo…” E isto pode ir até ao infinito. Ou até ao momento em que
alguém se ponha para ali a adivinhar.
Regra geral “os novelos”, que é a
designação que a plebe dá às habilidades das bruxas, passam directamente de mãe
para filha e assim sucessivamente. Existe pois uma tradição familiar. Na passagem de
testemunho, realiza-se assim um pequeno ritual. E uma vez que a exânime está
para ali a repetir feita doida, a intenção de deixar, (não se sabe bem é o quê), a
filha, logo lhe pergunta: “Mas deixa o quê, minha mãe?” (Era assim mesmo que se
falava antigamente, no tempo do Salazar). A moribunda aproveita logo a deixa e
conclui: “Pois aí os tens.” E depois disso… ela emite o flato mestre.
Só que tenho a dizer que toda esta
transição profissional, me oferece muitas dúvidas. Mais, eu não acho nada justo
que as coisas se processem assim. É que se trata de uma falta de respeito muito
grande, pelas vontades e ambições da descendência. A filha implicada pode muito
bem não querer ser bruxa. Pode achar que não tem vocação. Pode achar que será
muito mais feliz como cartomante, astróloga, ou mesmo como uma daquelas
senhoras que põe unhas de gel. Agora bruxa?... Além do mais, a pessoa não se
preparou convenientemente para a acepção do cargo. Não contou com uma formação
adequada, nem estágio profissional. E como é que se vai exercer bem uma
profissão, se se desconhece o que é básico? Se se ignora também as competências
técnicas, assim como os conteúdos funcionais? E depois, nem sequer há o
reconhecimento de uma assinatura? A execução de um contrato de trabalho? Um mês
ou dois de experiência, contando com a supervisão do chefe? Nem sequer um
simples estágio não remunerado?
Diz a tradição que a profissão de
bruxa se trespassa assim e nestes moldes. Sem burocracias, nem direito a
qualquer concurso público. Há somente a tradição familiar. E quem sabe, talvez
uma qualquer organização sindical? Ligada a uma qualquer central sindical? Por exemplo à CGTP?
Ora há dois ou três anos, eu fui
a um país situado no Extremo Oriente. E fui com uma amiga, assim como mais
algumas pessoas conhecidas. Eu gostei muito do que vi e a minha amiga também.
Mas num último jantar e à despedida, a minha amiga começa a queixar-se de dores
muito incomodativas na zona que corresponde à localização dos pulmões e do coração. E aquilo
que não lhe passava de maneira nenhuma… Ela andou assim quatro ou cinco dias.
Mesmo depois de ela já ter regressado à pátria lusa. Mas… e o que era aquilo?
Perguntava-se a ela própria e a toda a gente. De concreto, ela nada apurou, nem
descobriu. Só que passados esses quatro ou cinco dias, ela melhorou, sem ter
tido mais qualquer queixa de idênticas sintomatologias. E nunca mais foi
acometida por tal mal. Passada a tormenta, ela pensou, repensou e tornou a
pensar. E calmamente ela também chegou a uma conclusão. É que no tal ultimo
jantar, ela havia sido “muito mirada”. Quase até ao incómodo. E não foi por
nenhum homem jeitoso. Quem lhe dera! Mas, perguntam vocês quem é que fora a tão impertinente
observadora? Pois foi a velha. A mesma que no início deste texto, me havia
querido chamar a mim de bruxa. Há com cada uma?!
Sugestão de leitura para esta
semana: “As Bruxas de Salém” de Arthur Miller.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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