Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 31 de maio de 2013

No creo en brujas, pero que las hay, las hay.



Quando a vida não nos corre de feição, a primeira tendência que temos, é a de atribuir responsabilidade a factores externos. E depois rogamos ao altíssimo, ou a pessoas de virtude, a resolução de todas as embrulhadas que nos vão condicionando a vida. Mas, e quem são estas pessoas de virtude? Conhecem alguma?
Sabemos através dos anúncios na imprensa escrita, da existência de algumas das individualidades que publicitam os seus serviços. Prometem resolver-nos os mais variados problemas. E juram poder encontrar por nós: o emprego desejado, o amor que tarda a vir, o aumento de todos os pénis resfriados e encolhidos, da libertação efectiva das vaginas em reclusão, do culminar das más influências, assim como a resolução definitiva dos bicos de papagaio e do mau hálito.
Esses magnânimos indivíduos, são frequentemente intitulados de Professores. E na sua grande maioria, aparentam ser de ascendência africana. Isto no caso dos homens. As mulheres de virtude parecem-me ser, muito mais parecidas connosco. Têm nomes actuais e estão quase sempre de bem com a vida. Elas que até tiveram necessidade de aumentar (e muito) os seus seios e unhas. E puseram também, extensões histriónicas nos cabelos. Falam é somente por um cantinho da boca. E assumem muitas outras características, que consideram ser imprescindíveis para o desenvolvimento efectivo da sua/delas, profissão.
Um dia e em viagem, eu conheci uma certa velhota. Conheci-a é como quem diz… Comecei por conversar com ela. Mas com o desenrolar da conversação, eu descobri que não simpatizava lá muito com ela. E a reciproca também era verdadeira. Existem pessoas que são incompatíveis. Lamento dizer, mas é a mais pura verdade.
Ora num certo dia, e ainda em viagem, eu ouvi da boca envelhecida da dita idosa, um pregão que rezava assim: “Estas meninas que parecem ser tão boazinhas, mas na realidade são umas bruxas.”
Obviamente que eu não me revi naquela observação e por isso mesmo resolvi não argumentar. Afinal se o fizesse estava a reconhecer a condição que ela ali me queria atribuir. Além do mais nem o barrete me servia. Nem aquele lenço preto (ou às bolinhas) que as bruxas costumam usar na cabeça. Para além disso, se eu respondesse, acho que ainda era pior. A senhora em causa era muitíssimo mais velha do que eu. E eu apesar a provocação (que poderia atingir todas as meninas que ali estavam), decidi dirigir-lhe todo o meu respeito. Ou melhor, a névoa crua e algo desbotada de toda a minha indiferença. E quem é que me podia garantir que a velhota já não havia recebido a visita do senhor Alzeimer? Coitadita!
Numa outra ocasião, em data bem anterior à do conhecimento que acima transcrevi, eu vivi uma experiência que ainda não tenho qualquer explicação para ela. Ia com os meus pais, fazer comprar a um grande hipermercado. Tivemos a necessidade de efectuar as chamadas compras do mês. O meu pai é uma pessoa de linguajar fácil. Péla-se por uma boa conversa com boatos à mistura (porque não dizê-lo se é verdade). E lá ao longe ele avistou uma sua querida amiga. Amiga mesmo, nada com outras intenções contra-indicadas a quem é casado e bem casado há muito ano. E foi assim (e só num salto), que ele se pôs ao pé da venturosa. E quanto à senhora minha mãe? Pois nunca gostou nada destas coisas, e ali naquele supermercado, muito menos. E a mim (e sem saber muito bem porquê), também me desagradou bastante toda aquela abordagem. A mulher estava ali somente, para comprar umas sardinhas. Mas os peixes e a partir dali, era o que menos interessava. É que a conversa daqueles dois, nunca mais acabava! E eu ali à seca. A minha mãe também. E os dois perdidos em falas intermináveis, entrecortadas com muitas risotas.
Mas de repente, e sem que nada o previsse, eu comecei a sentir-me mal. Com uma vontade muito grande de “ir ao Gregório”. Quase a desmaiar. A ver tudo branco. Depois senti a minha temperatura corporal a subir acentuadamente. Após isso, tão depressa eu tinha frio, como suava em bica. E tremia, meu Deus, como eu tremia. Pelo que sem alternativa, eu digo ao meu pai que era tempo daquela conversa acabar. Que de tão distraído que estava, nem sequer deu conta da minha má disposição. Dei-lhe a conhecer aquele meu estado, usando de meias palavras, pois não queria ser rude para com a tal senhora.
Sei dizer que foi muito difícil para mim, concluir aquele processo de aquisição de víveres. Nem sequer consegui conduzir o meu carro de regresso a casa, como é habitual. Levou-o o meu pai, que é somente o condutor mais aselha que eu conheço.
Em casa corri para a cama e ali fiquei em grande sobressalto. Mas o que é que se passava comigo? Fiquei ali tolhida, quase sem me poder mexer. Como sou alérgica aos médicos (essa é efectivamente a minha maior alergia), pedi ao progenitor que fosse à farmácia e lá relatasse os meus sintomas. Ele muito revoltado, lá foi. Pois o que ele queria, porque queria, era levar-me para as urgências de um hospital.
Na farmácia, a farmacêutica a custo lá me receitou uns comprimidos. Ela que achava que eu tinha era que ir era o mais urgentemente possível ao médico. Pois podia tratar-se de doença súbita e mortal. Ou podia também ser, uma qualquer febre reumática, que mal curada, me poderia arrasar e para sempre, o coração. No fim, e muito contrariada, a farmacêutica lá receitou uns antipiréticos, fazendo prometer ao meu pai, que se eu não melhorasse nas próximas horas, me obrigasse a procurar acompanhamento clinico. O meu pai lá prometeu. E ficou também cheio de medo de me perder. É que eu ainda lhe fazia muita falta.
Tenho a dizer que tomei somente um comprimido. Mais, quando o meu pai regressou a casa vindo da farmácia, já eu apresentava claras melhorias. Isto sem ter tomado absolutamente nada. Tomei só um comprimido, dos receitados, porque depois eu já não tinha qualquer sinal daquela estranha enfermidade. Passada uma hora, eu já estava como se nada fosse.
Muito mais tarde, informaram-me que a mulher com que o meu pai tão gloriosamente falara, era uma mulher de virtude. Já a sua mãe o fora, assim como a sua avó. Mas se calhar a coitada esteve sempre inocente? É que eu tenho tendência em duvidar destas coisas. Pois estas coisas, (e a meu ver), são muito difíceis de comprovar. Pois em tais circunstâncias, quem é que testemunha? E quem é aquele que se atreve a acusar? Aproveito para dizer que aquela virtuosa mulher, quiçá inocente, já não pertence ao mundo dos vivos.
Só passado algum tempo, é que a minha tia me disse, que as habilidades daquela natureza se passam, no momento da morte da antecessora. E mais me disse a titi. Quando a bruxa está a morrer, fá-lo rodeada pela família. E do nada a moribunda põe-se para ali a pregar: “Eu deixo, eu deixo, eu deixo…” E isto pode ir até ao infinito. Ou até ao momento em que alguém se ponha para ali a adivinhar.
Regra geral “os novelos”, que é a designação que a plebe dá às habilidades das bruxas, passam directamente de mãe para filha e assim sucessivamente. Existe pois uma tradição familiar. Na passagem de testemunho, realiza-se assim um pequeno ritual. E uma vez que a exânime está para ali a repetir feita doida, a intenção de deixar, (não se sabe bem é o quê), a filha, logo lhe pergunta: “Mas deixa o quê, minha mãe?” (Era assim mesmo que se falava antigamente, no tempo do Salazar). A moribunda aproveita logo a deixa e conclui: “Pois aí os tens.” E depois disso… ela emite o flato mestre.
Só que tenho a dizer que toda esta transição profissional, me oferece muitas dúvidas. Mais, eu não acho nada justo que as coisas se processem assim. É que se trata de uma falta de respeito muito grande, pelas vontades e ambições da descendência. A filha implicada pode muito bem não querer ser bruxa. Pode achar que não tem vocação. Pode achar que será muito mais feliz como cartomante, astróloga, ou mesmo como uma daquelas senhoras que põe unhas de gel. Agora bruxa?... Além do mais, a pessoa não se preparou convenientemente para a acepção do cargo. Não contou com uma formação adequada, nem estágio profissional. E como é que se vai exercer bem uma profissão, se se desconhece o que é básico? Se se ignora também as competências técnicas, assim como os conteúdos funcionais? E depois, nem sequer há o reconhecimento de uma assinatura? A execução de um contrato de trabalho? Um mês ou dois de experiência, contando com a supervisão do chefe? Nem sequer um simples estágio não remunerado?
Diz a tradição que a profissão de bruxa se trespassa assim e nestes moldes. Sem burocracias, nem direito a qualquer concurso público. Há somente a tradição familiar. E quem sabe, talvez uma qualquer organização sindical? Ligada a uma qualquer central sindical? Por exemplo à CGTP?
Ora há dois ou três anos, eu fui a um país situado no Extremo Oriente. E fui com uma amiga, assim como mais algumas pessoas conhecidas. Eu gostei muito do que vi e a minha amiga também. Mas num último jantar e à despedida, a minha amiga começa a queixar-se de dores muito incomodativas na zona que corresponde à localização dos pulmões e do coração. E aquilo que não lhe passava de maneira nenhuma… Ela andou assim quatro ou cinco dias. Mesmo depois de ela já ter regressado à pátria lusa. Mas… e o que era aquilo? Perguntava-se a ela própria e a toda a gente. De concreto, ela nada apurou, nem descobriu. Só que passados esses quatro ou cinco dias, ela melhorou, sem ter tido mais qualquer queixa de idênticas sintomatologias. E nunca mais foi acometida por tal mal. Passada a tormenta, ela pensou, repensou e tornou a pensar. E calmamente ela também chegou a uma conclusão. É que no tal ultimo jantar, ela havia sido “muito mirada”. Quase até ao incómodo. E não foi por nenhum homem jeitoso. Quem lhe dera! Mas, perguntam vocês quem é que fora a tão impertinente observadora? Pois foi a velha. A mesma que no início deste texto, me havia querido chamar a mim de bruxa. Há com cada uma?!
Sugestão de leitura para esta semana: “As Bruxas de Salém” de Arthur Miller.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


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