O que é que acontece, que faz de
nós, admiradores de determinado Clube de Futebol? E francamente, o que é que se
ganha com isso?
No meu caso, tudo começou quando
o meu pai encontrou, um cromo de um antigo jogador do Sporting. Há já muitos
anos atrás. Depois, ele olhou para o leão, já um bocado a desbotar-se, mas em pose
agressiva e disse: “Este vai ser e para sempre, o clube de futebol da minha
adoração.”
E eu (sem saber muito bem porquê)
segui-lhe o rasto no que concerne a preferências clubísticas. E nasceu assim,
uma curta tradição. Acresce dizer que, se o meu pai tivesse encontrado o
retrato do Eusébio, mostrando os seus peitorais, se calhar eu hoje,
posicionar-me-ia na classe dos lampiões. Mas, e registado que fica aqui o
começo, eu acabaria por antipatizar de alguma maneira, com o clube vermelho e
mais a sua águia. Não é que os odeie, muito longe disso. Os meus melhores
amigos até são benfiquistas. Contudo, posiciono-me mais para o lado dos leões.
E do estádio dos azulejos sanitários.
E quanto a simpatias clubisticas? Diz-se que
é mais fácil mudar de partido politico ou mesmo de religião, do que de clube. Que é algo
que ao assumir-se, nos acompanha (e para sempre), até à hora da morte.
Só que se eu pensar bem, até nem ligo
lá grande coisa ao futebol. É certo que lhe conheço as regras básicas e vejo uma ou outra
partida. Contudo o que eu aprecio mesmo, é assistir às intermináveis conversas
sobre o jogo. Com todos aqueles senhores, doutores ou não, que se põe para ali
a falar até à exaustão de um passe mal dado, ou da má decisão de um
qualquer árbitro. E depois disso, eles vêm quinhentas e trinta e duas vezes, a
repetição de um só lance. De seguida, eles falam das polémicas, como se a sua
própria vida dependesse disso. Tenho a dizer que (e por causa disso), eu senti
profundamente, a morte do Pôncio Monteiro. Eu que até nem alinho pelos portistas,
mas que sinto por eles, também alguma simpatia. É que comprovadamente, o meu coração é bastante
abrangente. E depois, era delicioso, assistir àquele senhor Pôncio ali a falar? E usar
aquele seu modo tão particular de dialogar. Através de uma forma tão irónica e inteligente. Tenho a dizer que para mim, aquele programa
televisivo onde ele participava, (e depois do seu lamentável desaparecimento),
perdeu 75% da graça. E deixou mesmo de poder contar com a minha assistência. Consta
até, que os responsáveis do programa ainda hoje lamentam esta minha tão radical
decisão. E o que eles perderam com a minha desistência, Santo Deus? Nem os mesmos querem
pensar!
Gosto então mais de ver
comentários sobre o jogo, do que o jogo propriamente dito. Poderei assim ser
considerada de adepta? Se calhar até não. Além do mais, ser sportinguista é ter
uma triste sina. É sofrer, sofrer e… tornar a sofrer. Este ano ficámos em
sétimo lugar. Parece que foi a classificação pior de todas. Mas, e nos anos
transactos? Pois a coisa não foi muito melhor. E estamos em jejum desde o ano da
capicua. Ou seja, desde 2002. E se a capicua for o alento, a repetição da glória só será
conseguida lá para o ano de 2112. Parece-me que já por cá não estaremos… E que para
longe vá o agouro!
Mas, e se falarmos do outro lado da
Segunda Circular? E do azar com que os mesmos este ano foram acometidos? E aqueles
meus amigos benfiquistas? O que eles choraram de tristeza? E depois o "meu queridíssimo”
Jorge Jesus?… A ser ali tão empurrado, coitadinho?
Mas avaliando bem as coisas, eu acredito que mesmo
que se o meu pai na sua já tão longínqua juventude, tivesse encontrado uma águia em pessoa e pedir boleia, eu parece-me que jamais poderia, alinhar pelo lado dos rubros. É que eu confesso, sempre achei
muito estranhas, algumas das características daquele clube encarnado.
Por exemplo: Eu gosto muito de os
ver, com a mão alapada no peito, a cantar (sem nunca se enganarem na letra),
aquele celebre hino do Benfica. Hino esse, que de tão repetido que foi e ainda
é, já se pode considerar do conhecimento geral e integral, de todos nós.
Sejamos nós benfiquistas ou não. Contudo sempre achei curioso (e também sempre
me deu muita vontade de rir), quando eles chegam àquela parte das “Papoilas
Saltitantes”. Não acham que aquilo é um bocado esquisito? Estão para ali eles a
cantar, a plenos pulmões, e de uma forma tão viril… mas uma letra um bocadito
pró “rabicha”? Sim, compararem um exímio e destemido jogador de lances
gloriosos a uma papoila…? É que.. já viram bem o que é uma papoila? Ainda se fosse uma
alcachofra vermelha, ou mesmo uma árvore de jacarandá? Agora uma papoila? E
ainda mais… saltitante? Sinceramente, o que é que isso vos leva a pensar? Eu
lamento muito, mas no meu caso, esse pensamento é-me absolutamente involuntário.
Além do mais, uma papoila desfaz-se logo. A papoila não consegue ter resistência
nenhuma. E depois é sempre muito vaidosa. Pelo menos para mim, que levo sempre
em linha de conta, uns versos que me ensinaram quando eu era ainda muito
criança. E que rezavam assim:
“Estava a papoila,
dizendo ao trigo:
-Como eu sou linda,
oh meu amigo!
Mas nisto passa um
lavrador,
E com a foice, corta
a flor.
Filhos: é bom ter formusura
Mas ser vaidoso, não
trás ventura.”
É óbvio que não vou entrar em
grandes detalhes, pois a comparação é muito forçada e pode não dignificar a massa
associativa benfiquista. Pelo menos à massa a que pertencem as pessoas de que
eu gosto muito e a quem desejo as maiores felicidades. Mas vejam lá uma coisa: é
que lá está (e mais uma vez), a papoila. Que detém em si, características muito
pouco recomendáveis. E sempre com uma grande vulnerabilidade. Pois acaba por
estar ali, à mão de semear, de todos lavradores, sejam eles do Chelsea, do
Estoril ou mesmo do Guimarães.
Mas meus queridos amigos
benfiquistas, se o hino não vos faz impressão? Quem sou eu para refutar? E
desculpem-me até mesmo, esta minha ousadia.
Depois vem também aquela ideia, de que
só é bom chefe de família, quem é benfiquista. Mas onde é que isso ficou provado?
Quais é que foram os estudos realizados, que de tão precisos e científicos, não
poderão nunca desmentir tal teoria? Para além disso, é mais ou menos do conhecimento geral, que essa coisa dos cargos das chefias
familiares, já se foi atenuando com a passagem dos anos. É que as famílias (e
felizmente) têm cada vez mais, responsabilidades repartidas. Pois eu “apreveito”
assim e desta maneira, para chegar a algumas considerações. E não as coloco nas
mãos de “tarceiros”. É que eu “dou-les” mesmo aqui, todas estas minhas teorias
possidónias… E gratuitamente. Para bem da continuidade da pacífica convivência
entre todos. Devemos pois, continuar a… “acarditar” nisso. Nem que para isso,
tenham que vir, os “Motocards” da Amadora.
E depois todos dizem que o Benfica detém uma enorme
massa associativa. Desse clube tomam acento, personalidades de grande
relevância. E de todos os quadrantes do panorama nacional. Das quais eu destaco
o Manuel Alegre. O Poeta Alegre. E destaco-o porque é por inerência, aquele que me diz mais.
Fala-me... e como dizer? Assim, mais ao coração. E são da sua criação, poesias
inspiradíssimas, que nos fazem vibrar de emoção. Ajudam-nos mesmo a sentir,
muito orgulho do nosso país e da nossa cultura.
Contudo, lá está, existe também uma
coisita de muito pouca relevância… E vocês desculpem-me mais uma vez eu entrar assim em seara alheia. Prometo-vos é que vou ter cuidado especial com as papoilas… Mas continuando, é que
o poeta Alegre, a dada altura da sua vida, andou a perguntar ao vento, quais é
que eram, as notícias do país. Saber por exemplo, se estivera a chover? Ou se
caíra geada? Entre (e naturalmente), muitas outras inquirições. Deve de ter querido saber, se o seu Benfica havia triunfado…? Nesse tempo, o Poeta Alegre estava “fora
de portas”. E forçadamente, pois a sua presença, não era nada tolerada por cá.
Fora pressionado a sair pelos líderes portugueses da altura. Que eram
reconhecidamente, muito repressores e reacionários. Nada recomendáveis, mesmo.
Está tudo muito bem. Ou melhor,
estava tudo muito mal. Mas… convenhamos… andar assim a perguntar ao vento...? E
depois disso, tentar ainda chegar à conversa com os rios? Pois... Não teria sido
melhor ideia, ligar a rádio ou mesmo esperar pelas notícias da televisão. Ou
então, telefonar a alguém da sua confiança. Agora questionar o vento? E depois
de tudo isso, ele ficar para ali muito admirado e constrangido, porque nem o vento,
nem os rios… lhe responderam? Mas meus amigos, alguma vez, tal fora espectável? Alguém
pensou que a comunicação entre aqueles elementos, fosse possível? Pois… eu não
sei.
Quanto a mim, foi já na longínqua década de noventa, que um grupo de amigos benfiquistas me resolveram brindar com duas quadras, que guardo religiosamente e que hoje quero aqui partilhar convosco. As quadras tinham mesmo como ilustração a figura de um leão, aparentemente já na reforma e a convalescer (mas com muita dificuldade), a uma moléstia qualquer. Estávamos mais concretamente, no ano de 1999. E as quadras eram as seguintes:
“Dezoito anos de
espera,
Sinto-me velho e
cansado.
Deixei de ser uma
fera,
Sou um gatinho
amestrado.
E neste campeonato
agreste,
Danço tango, danço
swing,
Chamo-me Maria
Celeste,
E sou fã do
Sporting!”
Não é necessário fazer um grande esforço para verificar que uma coisa ressalta logo à vista:
Os meus amigos não são lá muito bons poetas. Incontestavelmente, o poeta
Alegre, é muitíssimo melhor. E aqueles verdadeiros “poetas de pacotilha”, os
que me ofertaram as acima apresentadas “pérolas linguísticas”, deviam de
repensar muito bem, a continuidade da sua condição, enquanto trovadores. É que
convenhamos, as rimas, são forçadíssimas até mais não. E onde é que “swing”,
rima com “Sporting”? Mas… alguma vez? É que para isso acontecer, nós tínhamos
que dizer: Sportíííííng. E... ora, tentem lá. E depois, ninguém fala assim. Nem
mesmo o Jorge Jesus, senhores!
Após aquela tão triste declamação, eles ficaram
a achar, que foi coisa mesmo linda de acontecer. A de poderem-me “poemar”
assim. E depois desse tão grande dislate, ficaram para ali a rir-se, até lhes
faltar o ar. E eu, coitadinha, ali só e tão desprotegida! Já com uma cara de
caso, e a ficar até um bocadinho p’ró esverdeado… Ah pois foi!
Só que eu não sou rapariga de
ressentimentos. Nunca fui. Que Deus dê pois, muita saúde, juízo e venturas a
todos os meus amigos lampiões. E já agora, aproveito a deixa, e peço à Divina
Entidade, que a mim, me dê também, muita paciência e algum espirito de
abnegação. É que vendo bem, a crise das vitórias já leva onze anos. E qualquer
dia, aqueles maganos, poem-se para ali, a versejar-me, outra vez. Livra!
Sugestão de leitura para esta
semana: “100 anos 1907-2007 Benfica-Sporting x
Sporting-Benfica... Pior do que Inimigos, Eram Irmãos” de Afonso Melo.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

Sem comentários:
Enviar um comentário