É absolutamente de lamentar, a
existência da corrupção por parte de todos, (mesmo de todos sem excepção), a
que a ela se verguem. Não poderá haver divisa que compre a nossa cumplicidade
em algo que se considera… estar errado. E sobretudo que compre ou determine o
nosso silêncio (atendendo às circunstâncias) de verdadeiras mercenárias/os
empedernidas/os. Acredito que nada de bom decorrerá no nosso país, nem no
mundo, se continuarmos a tolerar os actos condenatórios, cúmplices e corruptos,
por parte dos nossos políticos. E a dizer, por exemplo, que os mesmos poderiam
ser realizados por nós, se nós por lá também andássemos. E que quem é que nunca
ouviu ou disse mesmo a frase: “Se eu lá estivesse? Pois faria a mesma coisa”.
Ora com tal postura, perdemos
imediatamente a razão. E podemos ser considerados cúmplices da corrupção que
vai acontecendo. A corrupção é assim facilitada, porque é entendida. Nós ainda
não sabemos o futuro, nem aonde ainda iremos cair. Temos só uma vaga ideia. Mas
não se configura que a coisa vá melhorar grandemente a breve trecho. A
corrupção deverá assim continuar. E depois a corrupção pode ser estendida às
mais diversas escalas de valor, realizada por membros de todas as classes ou
grupos sociais. Mas não pode haver desculpas para ninguém.
Já passaram alguns anos, desde a
minha visita ao Egipto. E como eu adorei lá ter estado! Trata-se efectivamente
de um país interessantíssimo. Recheado de História por todos os cantos. E que
belos gatos eu também lá vi!
Mas foi em Abu Simbel, quando eu,
pacatamente me encontrava a visualizar os seus impressionantes monumentos, que
se deu, o que era para mim absolutamente… impensável. Pois andava eu por ali, compenetrada
e segura, mas não na verdura, porque a terra estava seca, quando a dada altura,
eu verifiquei que um elemento das forças policiais, reparava em mim. Mas
reparava mesmo em mim. E com muita determinação. Eu era mais nova, claro está.
Mas a sua atenção não se deveria à minha exuberância física. Nem à minha
estonteante beleza. E muito menos à minha capacidade intelectual
superior, e muito acima da média geral. Que é muito visível, até aos olhos dos
gatos. Sim, vocês bem podem lá ir ver no meu perfil: a modéstia é algo que não
me assiste. Nem nunca assistiu. E não era assim, porque se a minha enorme beleza
fosse o isco, o homem teria no mínimo, um ar simpático e amistoso. O que não
era definitivamente o caso. E depois, o homem não desviava mesmo o olhar. Como
já referi, o seu ar não era nada cativante, muito antes pelo contrário. O homem
tinha a sua fácies muito fechada. E o seu olhar era sobranceiro e algo furioso.
E estava assim ele, a olhar para mim. Quase com um ar ameaçador. Oh Deus do Céu!
E perante as circunstâncias aqui
reveladas, o mais espectável, seria eu sair dali “bem de fininho”, e procurar
outros olhares bem mais simpáticos. Mas não foi nada assim, amiguinhos. O que
eu fiz foi pôr-me também a olhar para o homem, e directamente. Ora pois, somos
ou não somos todos iguais? E então naqueles sítios!? Olhar directamente, que é
coisa que muito me têm avisado para não fazer, quando eu visito outros países. Mas
eu tenho-me recusado a aceitar tais recomendações. Que de alguma maneira até
têm razão de ser. É que há tantos costumes. Há tantas formas diferentes de se
comunicar. Os gestos que têm entendimentos diversos nos diferentes locais do globo.
Alguns com significados diametralmente opostos aos que são do nosso
conhecimento.
Pois, eu fiquei também ali a
olhar para o policial. Mas, e decorrido algum tempo, e como a coisa não atava,
nem desatava, eu aproximei-me um pouco mais do homem, e sempre sorrindo quis, (porque
quis), tirar uma fotografia com ele. É que o raio das máquinas retrateiras, estão
sempre ali tão presentes, e a quererem ser sempre manipuladas! Às vezes nem eu
mesmo lhes resisto. E… foi assim que mais uma fotografia nasceu.
Contrariamente a tudo o que eu
pudesse esperar, atendendo às circunstâncias, o homem acedeu à minha pretensão.
E pôs-se ele ali também ao meu lado, mas sempre com aquele seu ar sobranceiro,
só que já não estava era a olhar para mim. Olhava era para uma máquina fotográfica
muito imponente, transportada (e com muita dificuldade) por uma pessoa amiga.
A frase: “olha o passarinho”,
teve ali oportunidade. Eu sorri. Mas o policia não. E tudo fazia crer que o
nosso fugidio e muito pouco prazeroso relacionamento, havia cessado naquele instante.
Mas nada mais errado, meus amigos. Eu afastei-me lentamente, sempre a sorrir
para ele, numa tentativa vã de o reconciliar com a vida. Só que o homem (sempre
de ar revoltado) desatou ali aos gritos, utilizando uma linguagem que eu não
conseguia perceber de maneira nenhuma. Depois, e ante a minha aparente apatia
começa por gritar. “Tip, tip…” E mais “Tip, tip, tip, tip e tip”. No que me
recordou à altura, o barulho que faziam, as antigas máquinas de escrever.
Pois era uma gorjeta. O que o
magano queria, era mesmo uma gorjeta. Eu, mas no meu lusitano linguajar, lá lhe
comuniquei, a minha total indignação perante aquela inusitadíssima situação.
Que era uma coisa, muito contra os meus princípios, etc, etc. Só que o
entendimento entre as duas partes foi absolutamente… nulo. Aquilo mais parecia
o linguajar das duas pessoas, que chegaram primeiro ao cimo da Torre de Babel.
Eu a tentar comunicar com muita determinação. Ele a fazer-me muitos gestos,
dizendo-me que queria dinheiro. É que convenhamos, eu estava muito longe de
pensar, que dar uma moeda a um polícia fosse uma coisa bem vista. Ou
necessária. Pelo menos naquele tempo, onde os ordenados na lusa pátria eram mais
ou menos condignos. E recebíamos os subsídios a que tínhamos direito. E na hora
devida. Mas, e como é que seria a situação ali naquele país árabe? Eu fui ao
Egipto, em data bem anterior ao deflagrar da célebre Primavera Árabe. Num
ambiente considerado pacificado.
Mas se ele queria uma gorjeta, ou
melhor se ele exigia mesmo uma gorjeta e… enquanto carregava no seu corpinho,
uma enorme metralhadora… Bem, eu tinha razões para temer. Nunca confiando. Pelo
que, quezilenta e revoltada, eu lá abri a minha pequenita carteira, (que nunca
teve muito dinheiro), e tirei de lá uma moeda. Tirei a primeira moeda que me
veio à mão. E era uma moeda de vinte cêntimos. Não era o suficiente, claro
está, mas se o policial juntasse aquela às outras, que outras pessoas lhe
haveriam de dar… Pessoas, que eventualmente também abrissem os seus cordões à bolsa,
ao fim do dia…
Foi ai que coisa piorou mesmo. É
que o homem olhou fixamente para mim, depois olhou muito compenetradamente…
para a moeda… Depois olhou outra vez para mim. E as suas bochechas ficaram
mesmo da cor das papoilas saltitantes. Tal qual como se o homem tivesse feito uso,
de um poderoso blush. Depois disso, ele
dá em aumentar o tom dos seus gritos, e de uma forma mesmo muito ameaçadora.
Ele, (que como já disse), carregava consigo a tal arma. Se calhar até tinha
duas. Estando com certeza, uma… mais escondidinha. Eu é que não sabia disso. E
ainda bem para mim.
Só sei, que sai dali sem dizer
mais nada. E muito, mas muito, rapidamente. Ele, evidentemente não me
perseguiu. Também era só o que me faltava. Mas continuou com o seu vociferar. E
a agitar vigorosamente um braço no ar. Desconfio que me deve de ter rogado duas
ou três pragas. E também deve de ter colocado em causa, toda a dignidade e o bom
nome, da senhora minha mãe.
E foi assim que decorreu o meu
único contacto com a pérfida corrupção. Pelo menos que eu me lembre. Mas eu
tenho boa memória.
Refiro que para todo o sempre, eu
fiquei com uma dúvida existencial muito grande. Quanto dinheiro é que eu tinha
que dar, para satisfazer amplamente aquele elemento das forças policiais?
Afinal o que eu estava a pagar era um serviço e não sabia. Só podia ser. E
depois, será que havia por ali alguma tabulação de preços? Livre de impostos? Existirão
por exemplo, policias que façam a sua pose, mas requeiram um preço mais baixo?
E que apareçam somente em perfil. Ou que avaliem por exemplo, a devida
proporção do custo/benefício.
Eu, é que não sabia nada disso. É
que ninguém me havia informado. Pelo que lhe cedi, a quantia que me pareceu
“justa” atendendo à circunstância. E a minha intenção jamais fora a de ofender
o elemento das forças de segurança. Afinal, e para que é que ele esteve sempre
ali a olhar para mim? E com tanta determinação, senhores? A minha intenção
sempre foi a melhor. Só que o homem não entendeu assim. E… levou toda aquela
minha elementar actuação, muito a peito.
Para concluir, registo que na
minha cabeça ficou também (e para sempre) uma certeza: jamais tornarei a tirar
fotografias com um polícia. Nem que o mesmo me assedie muito, para que tal
aconteça. Pois como facilmente adivinham, é coisa que me está permanentemente a
acontecer. :-D
Sugestão de leitura para esta
semana: “O Carteirista que Fugiu a
Tempo” de Francisco Moita Flores.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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