Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 22 de junho de 2013

E se morrer uma andorinha? Pois... mas não acaba a Primavera.



Depois de uma existência que se sonhou ser sempre agradável, doce e muito divertida, virá sempre o inevitável: o desaparecimento físico. E quantas vezes sem qualquer aviso prévio. É prudente pois divertimo-nos o máximo e viver cada dia como se fosse o último. Um dia, iremos acertar na mouche.
Quem sobrevive fica com trabalhos redobrados. E irá conjugar todos os seus esforços para homenagear quem partiu. E que depois ficará lá por cima, e avidamente à espera. É nesse sentido que por cá se sepultam os corpos. Muitos deles, anteriormente tão vaidosos e bem cuidados. Ou então… levam-se a "assar".
Pois o “assado” e a meu ver, é o processo preferível. É mais barato, seguro e higiénico. E facilita a vida de quem por cá fica. Depois só se tem que ir espalhar as cinzas ao mar, jardim ou ficar com elas em casa, dentro de um jarro. A ex-pessoa ocupará assim muito pouco espaço. Além de que fica ali, sempre muito sossegadita.
Mas e em relação aos cemitérios? Já se contabilizou o desperdício que é, ver centenas e centenas de metros quadrados, ocupados por tumbas e jazigos magnificentes e muitos espaçosos? Os mortos não precisam de casa, só os vivos. E siga para bingo.
Mas nem toda a gente pensa assim. E este assunto em particular, incomoda mesmo muita gente. Tenho uma amiga, a Maria que se recusa sub-liminarmente a falar comigo sobre tais temáticas. E particularmente sobre os fornos crematórios, que para ela devem de ser, a entrada mais directa para o submundo dos infernos. Não que ela me tenha comunicado essa sua teoria alguma vez. Eu é que assim concluí. É que ela sendo ainda nova, já determinou a todos os seus parentes e amigos, que depois de morta, terá que ser sepultada. E mais diz ela. Tem que ir mesmo toda completinha. Não lhe poderá faltar mesmo nada. Nem o seu cinto de ligas e roupas coleantes, nem a sua lingerie sexy. É evidente que também não estará disponível para doar qualquer um, dos seus órgãos. Ah pois é! Ora a minha amiga, está convicta de que todos esses detalhes, lhe poderão ainda, vir a fazer muita falta. Mas, e a fazer falta para quê? E não saberá ela, que as condições “atmosféricas” lá em baixo, não são lá muito propícias à conservação de tudo o que é físico? Amigos, exige-se aqui um pequeno intervalo, para uma curta meditação… Um, dois, três… OMMMMMMMMM! Bem… talvez já chegue. É que já devemos estar todos, um pouco mais recompostos, não é verdade?
A Maria deve de ser daquelas pessoas, que não se deve de incomodar nada, de um dia ir assistir ao "desenterramento" de um defunto. Quando se passam os tais cinco ou seis anos da praxe, após o desencarnar. É quando o coveiro, mais todos os seus assistentes, obtém uma linda e muito inspiradora imagem. Onde eles têm que determinar, se os restos mortais, estão ou não estão capazes de viajar para outro lado. E… se estiverem para isso capacitados, eles não precisam de passaporte. É que são levados com pompa, para uma gavetinha. Onde também se colocam uns naperons muito cool e mais umas fotografias. E flores, só que em plástico. E o que os coveiros devem de fazer, em termos de quebra-cabeças com os ossos que encontram? Ou até mesmo jogos didácticos. Se calhar o desenvolvimento dessa actividade, é mesmo aconselhada por todo o corpo clínico. Para evitar por exemplo, o desenvolvimento da danada da doença do Alzeimer. E quando os coveiros reconhecem finalmente, a tíbia postiça e luxuosa, do senhor Manuel? E o seu olho de vidro? A festa que não deve de ser? E a família, ali toda reunida e a assistir a tudo. Presumivelmente até já muito emocionada? Já para não falar no momento, em que as dentaduras vão aparecendo? A espreitar, muito sorridentes lá por baixo?
Mas eu conheço alguém que vive paredes meias, com um cemitério, que inclui no seu património, um forno crematório. E que bela vizinhança este meu amigo tem! Um dia destes fui dar com ele a ter uma importantíssima dúvida existencial. Diria mesmo: uma das mais importantes dúvidas existenciais de toda a sua vida. É que o mesmo já se vinha a sentir há algum tempo, muito confundido. Eu diria mesmo: muito traumatizado. Pois digo-vos eu que o moço, já não consegue distinguir devidamente, se os aromas que ele de vez em quando vai sentindo, são provenientes do forno crematório seu vizinho, ou se de uma fábrica de bolos, situada um bocado lá mais para a frente? E convenhamos. É tramado viver com este tipo de dúvidas.
Quanto a mim tenho a dizer, que é mais feliz, pelo menos tem disso mais obrigação, aquele que está consciente da sua natural e absolutamente previsível finitude. E vive embalado na certeza de que a vida, apesar de finita, ainda poderá ter muita coisa para lhe oferecer. Ou se calhar até já não. Mas esta dúvida surge aqui, como algo reconfortante. Que não nos mata a esperança, muito antes pelo contrário, alimenta-a. Ainda bem que não dispomos ainda, daqueles aparelhos, que permitirão um dia visualizar todo o nosso futuro. E a 3 D.
E depois, quando o pano da nossa existência se fechar? Pois que fiquem por cá os outros. Que façam também eles a sua parte. E que se divirtam muito, pois a inevitabilidade da morte, (da sua morte), também para eles um dia irá chegar.
Mas voltando um pouco, ao assunto inicial. E quanto ao processo da assadura, o que transforma os nossos corpinhos já disfuncionais em cinzas? Pois… Apesar de fúnebre, eu reconheço que a cremação é algo capaz de inspirar em mim, uma certa imagem romântica. É que depois de sermos bem torricados, as cinzas que de nós restarem, não pesarão mais que três ou quatro quilos. Penso que descontando já o peso das cinzas, que resultam da madeira que nos serviu de suporte. Ou de tabuleiro. Ora esse peso (três ou quatro quilos) não deve de andar muito longe do peso, que todos nós tivemos, no dia em que nascemos. E de uma data à outra data das pesagens, existiu somente um intervalo, onde tentamos com todas as nossas forças encontrar a felicidade. E a busca e a concretização de tal, deve ser sempre o nosso principal objectivo. Decorreu assim, e durante esse tempo, toda a nossa singular actuação. Depois disso, o que virá…
Só que nada destas minhas conjecturas satisfazem, e de forma efectiva, o meu amigo N. O tal que vive ao pé do forno. Já que ele fica sempre p’rá ali a debater-se: “E este cheiro? Do que será? Será proveniente da D. Evangelina? Que era aquela velhota gaiteira, que teve uma vida cheia de aventuras? Ou será de uma tarte de maçã?”
E a dúvida dele é pertinente e absolutamente justificada. Já para não falar de que são cada vez mais numerosas, as pessoas que sofrem de diabetes. E a confusão daí decorrente, irá na certa prevalecer. Ou até mesmo aumentar. Disso eu não tenho a menor dúvida. Resistirá pelo menos, até ao momento da sua própria finitude. Ou então, até ao dia em que ele decida mudar de casa, alegando incompatibilidades várias com a realidade local.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água” de Jorge Amado.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


Nota: As senhoras que estão na fotografia acima postada, já se encontravam todas mortas. No século XIX, dez ou quinze anos após a surgimento e a difusão da fotografia, havia o hábito de fotografar pessoas mortas, como se elas ainda estivessem vivas. Não por morbidez ou particular sentimento fúnebre, mas antes como uma homenagem, já que ao fotografá-las e integrá-las muitas vezes junto daqueles que ainda estavam vivos, fazia-se com que por uma última vez, se pudesse representar um todo. Como parte integrante e indivisível. E em ambiente familiar.
No caso concreto e acima postado, todas elas já se encontravam mortas. Haviam perecido devido à ocorrência de um acidente. E se se verificar bem, uma delas até se encontra de costas voltadas para o fotógrafo. Essa circunstância é devida ao facto, da mesma ter ficado com a cara muito desfigurada. Mas refira-se ainda, que o fotografo também tinha, o seu apurado sentido de humor. É que uma das defuntas, (a segunda a contar da esquerda), até foi fotografada… de cigarro na boca.
Mas olhem, e uma vez que a morte é certa... DIVIRTAMSEMAZÉ!

Sem comentários: