Depois de uma existência que se
sonhou ser sempre agradável, doce e muito divertida, virá sempre o inevitável:
o desaparecimento físico. E quantas vezes sem qualquer aviso prévio. É prudente
pois divertimo-nos o máximo e viver cada dia como se fosse o último. Um dia,
iremos acertar na mouche.
Quem sobrevive fica com trabalhos
redobrados. E irá conjugar todos os seus esforços para homenagear quem partiu.
E que depois ficará lá por cima, e avidamente à espera. É nesse sentido que por
cá se sepultam os corpos. Muitos deles, anteriormente tão vaidosos e bem
cuidados. Ou então… levam-se a "assar".
Pois o “assado” e a meu ver, é o
processo preferível. É mais barato, seguro e higiénico. E facilita a vida de
quem por cá fica. Depois só se tem que ir espalhar as cinzas ao mar, jardim ou ficar com
elas em casa, dentro de um jarro. A ex-pessoa ocupará assim muito pouco espaço.
Além de que fica ali, sempre muito sossegadita.
Mas e em relação aos cemitérios? Já se contabilizou o desperdício que é, ver centenas e centenas de metros quadrados, ocupados por tumbas e jazigos magnificentes e muitos espaçosos? Os mortos não precisam de casa, só os vivos. E siga para bingo.
Mas e em relação aos cemitérios? Já se contabilizou o desperdício que é, ver centenas e centenas de metros quadrados, ocupados por tumbas e jazigos magnificentes e muitos espaçosos? Os mortos não precisam de casa, só os vivos. E siga para bingo.
Mas nem toda a gente pensa assim.
E este assunto em particular, incomoda mesmo muita gente. Tenho uma amiga, a
Maria que se recusa sub-liminarmente a falar comigo sobre tais temáticas. E
particularmente sobre os fornos crematórios, que para ela devem de ser, a
entrada mais directa para o submundo dos infernos. Não que ela me tenha
comunicado essa sua teoria alguma vez. Eu é que assim concluí. É que ela sendo
ainda nova, já determinou a todos os seus parentes e amigos, que depois de
morta, terá que ser sepultada. E mais diz ela. Tem que ir mesmo toda completinha.
Não lhe poderá faltar mesmo nada. Nem o seu cinto de ligas e roupas coleantes, nem a sua lingerie
sexy. É evidente que também não estará disponível para doar qualquer um, dos seus órgãos. Ah pois é! Ora a minha amiga, está convicta de que todos esses detalhes, lhe poderão ainda, vir
a fazer muita falta. Mas, e a fazer falta para quê? E não saberá ela, que as
condições “atmosféricas” lá em baixo, não são lá muito propícias à conservação
de tudo o que é físico? Amigos, exige-se aqui um pequeno intervalo, para uma
curta meditação… Um, dois, três… OMMMMMMMMM! Bem… talvez já chegue. É que já
devemos estar todos, um pouco mais recompostos, não é verdade?
A Maria deve de ser daquelas pessoas, que não
se deve de incomodar nada, de um dia ir assistir ao "desenterramento" de um
defunto. Quando se passam os tais cinco ou seis anos da praxe, após o desencarnar. É quando o
coveiro, mais todos os seus assistentes, obtém uma linda e muito
inspiradora imagem. Onde eles têm que determinar, se os restos mortais, estão
ou não estão capazes de viajar para outro lado. E… se estiverem para isso
capacitados, eles não precisam de passaporte. É que são levados com pompa, para uma gavetinha.
Onde também se colocam uns naperons muito cool
e mais umas fotografias. E flores, só que em plástico. E o que os coveiros
devem de fazer, em termos de quebra-cabeças com os ossos que encontram? Ou até mesmo
jogos didácticos. Se calhar o desenvolvimento dessa actividade, é mesmo
aconselhada por todo o corpo clínico. Para evitar por exemplo, o desenvolvimento da
danada da doença do Alzeimer. E quando os coveiros reconhecem finalmente, a
tíbia postiça e luxuosa, do senhor Manuel? E o seu olho de vidro? A festa que
não deve de ser? E a família, ali toda reunida e a assistir a tudo.
Presumivelmente até já muito emocionada? Já para não falar no momento, em que as dentaduras vão aparecendo? A espreitar, muito sorridentes lá por baixo?
Mas eu conheço alguém que vive
paredes meias, com um cemitério, que inclui no seu património, um forno crematório. E que bela
vizinhança este meu amigo tem! Um dia destes fui dar com ele a ter uma
importantíssima dúvida existencial. Diria mesmo: uma das mais importantes
dúvidas existenciais de toda a sua vida. É que o mesmo já se vinha a sentir há
algum tempo, muito confundido. Eu diria mesmo: muito traumatizado. Pois digo-vos eu que o
moço, já não consegue distinguir devidamente, se os aromas que ele de vez em quando vai sentindo,
são provenientes do forno crematório seu vizinho, ou se de uma fábrica de
bolos, situada um bocado lá mais para a frente? E convenhamos. É tramado viver
com este tipo de dúvidas.
Quanto a mim tenho a dizer, que é
mais feliz, pelo menos tem disso mais obrigação, aquele que está consciente da
sua natural e absolutamente previsível finitude. E vive embalado na certeza de
que a vida, apesar de finita, ainda poderá ter muita coisa para lhe oferecer. Ou se
calhar até já não. Mas esta dúvida surge aqui, como algo reconfortante. Que não
nos mata a esperança, muito antes pelo contrário, alimenta-a. Ainda bem que não dispomos ainda, daqueles aparelhos, que permitirão um dia visualizar todo o nosso
futuro. E a 3 D.
E depois, quando o pano da nossa
existência se fechar? Pois que fiquem por cá os outros. Que façam também eles a sua
parte. E que se divirtam muito, pois a inevitabilidade da morte, (da sua
morte), também para eles um dia irá chegar.
Mas voltando um pouco, ao assunto
inicial. E quanto ao processo da assadura, o que transforma os nossos corpinhos
já disfuncionais em cinzas? Pois… Apesar de fúnebre, eu reconheço que a
cremação é algo capaz de inspirar em mim, uma certa imagem romântica. É que
depois de sermos bem torricados, as cinzas que de nós restarem, não pesarão
mais que três ou quatro quilos. Penso que descontando já o peso das cinzas, que
resultam da madeira que nos serviu de suporte. Ou de tabuleiro. Ora esse peso
(três ou quatro quilos) não deve de andar muito longe do peso, que todos nós
tivemos, no dia em que nascemos. E de uma data à outra data das pesagens,
existiu somente um intervalo, onde tentamos com todas as nossas forças
encontrar a felicidade. E a busca e a concretização de tal, deve ser sempre
o nosso principal objectivo. Decorreu assim, e durante esse tempo, toda a nossa
singular actuação. Depois disso, o que virá…
Só que nada destas minhas conjecturas
satisfazem, e de forma efectiva, o meu amigo N. O tal que vive ao pé do forno.
Já que ele fica sempre p’rá ali a debater-se: “E este cheiro? Do que será? Será
proveniente da D. Evangelina? Que era aquela velhota gaiteira, que teve uma
vida cheia de aventuras? Ou será de uma tarte de maçã?”
E a dúvida dele é pertinente e
absolutamente justificada. Já para não falar de que são cada vez mais numerosas, as pessoas que sofrem de diabetes. E a confusão daí decorrente, irá na certa prevalecer. Ou
até mesmo aumentar. Disso eu não tenho a menor dúvida. Resistirá pelo menos,
até ao momento da sua própria finitude. Ou então, até ao dia em que ele decida
mudar de casa, alegando incompatibilidades várias com a realidade local.
Sugestão de leitura para esta
semana: “A Morte e a Morte de Quincas
Berro d’Água” de Jorge Amado.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
Nota: As senhoras que estão na
fotografia acima postada, já se encontravam todas mortas. No século XIX, dez ou
quinze anos após a surgimento e a difusão da fotografia, havia o hábito de fotografar
pessoas mortas, como se elas ainda estivessem vivas. Não por morbidez ou
particular sentimento fúnebre, mas antes como uma homenagem, já que ao
fotografá-las e integrá-las muitas vezes junto daqueles que ainda estavam
vivos, fazia-se com que por uma última vez, se pudesse representar um todo. Como
parte integrante e indivisível. E em ambiente familiar.
No caso concreto e acima postado, todas elas já se encontravam mortas. Haviam perecido devido à ocorrência de um acidente. E se se verificar bem, uma delas até se encontra de costas voltadas para o fotógrafo. Essa circunstância é devida ao facto, da mesma ter ficado com a cara muito desfigurada. Mas refira-se ainda, que o fotografo também tinha, o seu apurado sentido de humor. É que uma das defuntas, (a segunda a contar da esquerda), até foi fotografada… de cigarro na boca.
No caso concreto e acima postado, todas elas já se encontravam mortas. Haviam perecido devido à ocorrência de um acidente. E se se verificar bem, uma delas até se encontra de costas voltadas para o fotógrafo. Essa circunstância é devida ao facto, da mesma ter ficado com a cara muito desfigurada. Mas refira-se ainda, que o fotografo também tinha, o seu apurado sentido de humor. É que uma das defuntas, (a segunda a contar da esquerda), até foi fotografada… de cigarro na boca.
Mas olhem, e uma vez que a morte é certa...
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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