Desde que me entendo por gente,
que sempre ouvi o meu pai a repetir o mesmo desejo: “Quem me dera ver, a minha
querida professora!” Para além do facto daquela, ter sido a sua única docente,
acresce a ideia de que, se a mesma for viva, contará 195 Primaveras. E viverá
amorosamente com o seu muito extremoso marido Matusalém. Lá na bela povoação…
do Entroncamento.
E é com muito carinho que o meu
pai fala da mesma. Autoritária como tudo. Assinava-se como Regente Preponente,
só o nome assusta. E quis o destino que o meu pai fosse bom aluno. Porém algo
preguiçoso, característica herdada pela sua única descendente que se assina,
através deste modestíssimo blogue.
Pois eu tive muito mais
professoras que o meu progenitor. Consequência de ter vivido num outro tempo. E
da dedicação de meu pai, que me patrocinou inteiramente, dezasseis ou dezassete
anos de vida estudantil.
Mas, e quanto a professoras
primárias? Pois…
Eu tenho a confessar que, jamais
quis rever a minha primeira professora primária. Foi ela efectivamente que me
ensinou as primeiras letras. E também os primeiros números. Chamava-se Pulquéria Maria.
Era esse o seu nome de guerra. E era brava cum’ó raio! Muito brava mesmo.
Com o prosseguir dos estudos,
cheguei à conclusão que aquela mestra, só poderia ter andado, na escola da
Gestapo. Estagiado seguidamente na fábrica da PUVE. E depois deverá ter passado
para os quadros da PIDE, onde terminou gloriosamente a sua carreira. Num cargo
bem superior. É que só pode mesmo!
Os seus métodos de ensino, para
além de tenebrosos, não admitiam qualquer opinião contraditória. E foi ao
fixar-lhe os seus olhos tão arregalados e imóveis, que eu vi muitas vezes a
minha vida a andar para trás. É que ela castigava duramente, todo aquele que
não fizesse os trabalhos de casa, que desse erros ortográficos ou que falasse
nas aulas… E logo eu que sempre tive uma relação tão complicada com os celebres
TPC’s… Nunca achei que os mesmos me acrescentassem lá grande coisa à minha
vida. Era tempo perdido. Ou melhor era tempo roubado ao tempo glorioso das
brincadeiras. Assim como ao tempo dedicado ao convívio com os amigos e
familiares.
E além disso também adoro falar.
Sempre adorei. Cultivo a veleidade de pensar, que tenho sempre algo “muito
importante” a comunicar a quem quer que seja. Por isso, a minha vida não se
adivinhava, nada fácil. Muito antes pelo contrário. Estava assim reunida em
mim, uma mistura explosiva.
À primeira oportunidade, ela lá
“molhava a sopa”. E os castigos envolviam uma grossa régua de madeira, que um
dia “morreu”, quando ela não conseguiu acertar na mão de um desgraçado
qualquer, e bateu com ela na mesa. Só que a intrépida professora não perdeu
tempo. E num instante ela substituiu aquela agora, sua disfuncional ferramenta
de trabalho. Já que foi rapidamente à Grande Loja das Torturas, que era gerida
e da propriedade da Santa Inquisição. Lá ela utilizou o seu cartão de cliente.
Trouxe de lá uma outra régua similar. E aproveitando a época dos descontos, ela
adquiriu também uma férula e mais um manual, com muitos ensinamentos e
ilustrações em perfusão.
Havia contudo um grupinho
restrito de intocáveis. Que eram aqueles dois ou três meninos, muito bem
comportadinhos. Que faziam sempre tudo aquilo, que a professora mais queria e
mais desejava. E a esses infames, ela nunca tocava. Mais. Para ela, esses eram
exactamente os exemplos, que o resto da turma deveria de seguir. Só que eu
jamais ambicionei ser como um daqueles elementos. Lamento, mas é a mais pura
verdade. Até poderei dizer mais: até sentia por eles uma verdadeira antipatia.
Desejava-lhes mal. E queria que eles tivessem, muitas contrariedades na vida.
Credo! Logo àqueles que nunca haviam sentido o peso efectivo da régua, nas suas
tão delicadas, virgens e muito submissas mãos.
Estava-se nos anos 70. Década que
serviu de transição para tempos de maior tranquilidade e para outros métodos
pedagógicos, mais eficazes. Necessariamente sujeitos a críticas, mas o que é
que na vida não é alvo de contestação? Só mesmo a minha professora à altura.
Ela que ainda pertencia à velha guarda. Recordo, com um arrepio monumental, que
percorre toda a minha coluna vertebral, das alturas em que ela envergava umas
botas de cano alto. Parecia tal qual o Himmler. Será que eles ainda eram parentes?
Relembro uma outra vez, em que
ela abordou questões levemente ligadas, à vida sexual do ser humano. Ora logo
ela que era solteirona. Eu não tenho nada contra, as pessoas dessa condição,
como é evidente. Mas ela devia de ser, uma solteirona… das mais empedernidas.
Então e qual foi mesmo, a abordagem que ela fez quanto ao assunto supracitado?
Pois virou-se de perfil e disse-nos: “Como vêm eu sou um bocadinho diferente de
vocês. Tenho aqui no meu peito, estes tão delicados planaltos”. Ora, com
franqueza!... “Carecas” estávamos nós de observar aquele seu monumental par de
mamas. Não era necessário que ela nos chamasse à atenção para aquela sua tão
previsível diferenciação, em relação a nós. Que aos seus olhos, só éramos (e na
grande maioria) uns burros preguiçosos e uns indisciplinados. Com a lamentável
excepção daquele grupo glorioso de
engraxadores.
Mas houve um dia que fez toda a
diferença. Foi quando ela chegou à aula, e muito triste nos comunicou: “Tenho
tanta pena! Mas não vou ser mais a vossa professora. Vou ser transferida para
uma outra escola.” Ohhhhhhhhhhhhh!
Acreditem, foi um dos dias mais
felizes da minha vida. Eu fiz de conta que fiquei muito triste e infeliz. É
que… convenhamos, a régua ainda ali estava presente. E no activo. Pelo que
fingi ficar muito desolada com aquela comunicação. Mas ia-lhe ver as costas. E
finalmente. E para sempre! Por dentro, toda eu rejubilava. Já ia era tarde…
Para sempre (e para mim), o nome Pulquéria Maria,
ficaria associado à violência e à autoridade extrema. Ela foi a pessoa que eu
conheci, que menos foi capaz de motivar alguém, para os livros e para a
leitura. Ou para a obtenção de conhecimento em geral. Numa prática pedagógica
que ao invés de agregar, somente conseguia afastar os alunos das boas práticas
escolares. É que obrigada, eu não vou mesmo a lado nenhum! E aquela política de
vangloriar os bufos e os engraxadores? Absolutamente lamentável. Pelo que os
meus primeiros três anos de escolaridade revelaram-se assim, uma verdadeira…
agonia.
Só que tive o reverso da medalha
na minha quarta classe. E qual era o nome da virtuosa professora? Chamava-se…
Matilde. Essa sim. Foi uma excelente professora. Ela teve a virtude de nos
ensinar a matéria que constava no programa, assim como outros ensinamentos que
ela considerava passíveis de serem úteis para as nossas (jovens) vidas. O
início de cada aula era iniciado com a leitura de um capítulo de um livro, que
ela escolhia para nós. Era ela quem lia. E como nós ansiávamos pelo prosseguir
da narrativa!
Connosco ela fazia desporto. Aceitava
as nossas diferenças. Ainda hoje e nas noites de insónia, eu recorro a um dos
seus conselhos. É que para dormir, nada é melhor, que nos concentrarmos em
partes distintas do nosso corpo. Uma a uma. E o sono não tarda a vir.
Aquela professora não fazia
distinção entre ninguém. É evidente que todos tínhamos competências
diferenciadas. Uns eram mais dotados para uma matéria específica, outros para
outra. Outros menos dotados. Mas ela, e consequentemente não amesquinhava
ninguém.
Quando fazíamos os exercícios da
praxe e quando finalmente os entregávamos, ela motivava-nos para a leitura. E
enquanto os outros colegas não acabavam os seus trabalhos escolares, nós íamos
ler. E eu que ainda sou do tempo, em que a realidade das Bibliotecas Escolares
era bem diferente da da actualidade.
Pois aquela professora no início
do ano lectivo, havia-nos solicitado, que levássemos de nossa casa para a sala
de aula, um ou dois livros dos nossos. Constituiu-se desta maneira, uma singela
e pouco representativa biblioteca. Mas que de alguma maneira, cumpriria a sua
função. E foi desta forma que eu, e acabando as minhas tarefas escolares, me
deleitava a ler os livros dos meus colegas. É que os meus próprios livros, eu
já havia lido muitas vezes. E depois de acabado o ano escolar, nós recuperamos
na íntegra, todos os nossos haveres.
Um dia a minha mãe, e numa
reunião lá explicou à professora sobre como é que havia de proceder, uma vez
que via a sua única filha, pouco dedicada à causa escolar lá em casa. Resposta
pronta daquela excelente senhora: “Pois deixe-a brincar à vontade. É que a sua
filha, orienta-se e aprende muito bem. Aqui, na sala de aula”. E que mais é que
uma criança sonha poder ouvir, da boca de uma docente?
E aquela professora não
massacrava ninguém. Nunca teve régua, nem Menina-de-Cinco-Olhos. E nós
gostávamos tanto dela, que todos os dias, (mas todos os dias, mesmo) íamos
esperá-la à estação dos comboios. Elaborámos mesmo uma espécie de escala para o
efeito. E como ela ficava contente por nos ver ali. Ficava contente sempre… todos
os dias. Exactamente como se fossemos ali esperá-la, pela primeira vez.
Essa foi efectivamente a minha
professora primária de eleição. A outra foi uma espécie de guarda prisional, de
um campo de concentração, onde eu e mais alguns tivemos a infelicidade de cair
durante três anos consecutivos. Contámos com algumas saídas precárias,
consubstanciadas através da existência de feriados, fins-de-semana e de férias.
Mas que passavam muito rapidamente. E depois vinha outra vez a descida aos
infernos. Onde imperava o medo e a raiva. Pois aquela facínora e carrasca, para
além de nos castigar “forte e feio”, ainda tinha a desdita de ir contar tudinho
aos nossos pais. Que inexplicavelmente aceitavam tudo aquilo, como parte
integrante do processo que constituía o nosso crescimento e formação. Vá-se lá
entender porquê. Ao que parecia, também os meus pais haviam assinado um solene
contrato, com aquela carcereira efectiva e muito competente nas suas funções.
Nunca mais soube dela. Nem sei se
é viva se não. Mas acredito, que de qualquer das maneiras, ela terá lugar
cativo, no lado esquerdo do Belzebú!
E em relação à minha pessoa? Pois considero ter sido um verdadeiro milagre, eu ter estudado e apreciado até à
exaustão, os livros e as leituras. Depois de um começo tão pouco promissor. Ou se
calhar… até talvez não!
Sugestão de leitura para esta
semana: “O Rapaz do Pijama às Riscas” de John Boyne.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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