Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Poemando.


É usual o gosto pela poesia dar-se naturalmente na vida de uma pessoa. Creio não haver tempo definido a que isso aconteça. O gosto não se dá através da ocorrência de algum pré-aviso. Há contudo gente que nunca o adquiriu. Se calhar nunca se tentou pela sua leitura. Enquanto que outros, dizem-se amantes pela poesia desde sempre. Sempre a adoraram. Há ainda quem postule a tese de que a poesia, é a língua oficial dos deuses.
Eu, sendo a pessoa mais natural e previsível do mundo, posiciono-me no seio da maioria. Tive que aprender a gostar de poemas. Gosto e sempre gostei da palavra dita. Da cadência das palavras, do seu som. Enquanto pequena era naturalmente o som que mais me captava a atenção. Numa altura em que a real extensão do nosso vocabulário é necessariamente diminuta.
Quando era ainda criança eu lia naturalmente alguns livros onde estavam presente algumas poesias para crianças. Com rimas fáceis e engraçadas de repetir. Muito eu gostava das chamadas "destrava-línguas"! Já adolescente eu comecei a ler de tudo, mas como eu ficava particularmente tocada (mesmo emocionada), com a poesia muito sentimental e plangente da Florbela Espanca? Eu estava a viver a época das grandes paixões, dos grandes amores, das grandes "dúvidas existenciais". Quando me informei que o final da vida da poeta (acho que o vocábulo "poetiza" é actualmente considerado de reaccionário),  fora conseguido através da sua própria intervenção, ou seja, que a mesma se havia suicidado eu fiquei literalmente "arrepiada". Era a altura da minha vida em que eu apreciava muito a ideia de alguém morrer por amor. Mas morrer sem ser literalmente. Desmaiar e pronto! Alguém chorar até mais não poder, porque amava e não era correspondida no sentimento. Ter um dia ou dois de "acabrunhamento", mas... depois a coisa passava. Tinha que passar.
Como se sabe, alguns poemas da Florbela são de tal forma arrebatados de sofrimento que eu ficava na dúvida. Questionava-me se ela conhecera mais alguma coisa, para além do amor e da paixão contrariada. Deus do Céu! Eu na altura acreditava que se a tivesse conhecido (se tivéssemos sido amigas), poderia ter tentado mudar-lhe um pouco aquela "sua" obsessão. Se a tivesse conhecido poderia ter-lhe proposto (ao invés de ficarmos p'rá ali a chorar até morrer) irmos mas é comer umas sandes de coiratos e beber umas cervejolas.  E depois esquecermo-nos um pouco o género masculino. Género que era (e é), naturalmente descuidado e pouco receptivo a sentimentos verdadeiros. Especialmente quando se tem 15 anos, como era o meu caso e o caso dos meus potenciais (e distraídos), amores. Mas eu estava temerosa. E também fiquei um bocado desconfiada de que a coisa poderia não ser assim tão fácil. Poderia mesmo, acabar muito mal. Era conveniente pois cultivar uma certa calma e uma certa ponderação. É que apesar de tudo eu queria continuar a "virar frangos" por muitos e bons anos.
Ali eu já conhecia alguma da poesia Camoniana, especialmente a sua lírica. E bastante mais tarde "tentei-me" pela poesia de Fernando Pessoa. É um percurso básico, não é? Pois é, mas foi o meu percurso!
Foi ainda no tempo da Escola Secundária que eu me relacionei com um "grande amante e apreciador de poesia". Como facilmente se constata, esse meu amigo tinha conhecimentos muito mais sólidos sobre a matéria aqui citada, do que eu. Além disso tinha (e felizmente ainda tem), um excelente sentido de humor. Ora foi justamente numa fase inicial do nosso conhecimento mútuo, que apresentámos um ao outro as respectivas preferências no que toca ao "poemando". Depois e inicialmente muito em jeito de brincadeira, nós resolvemos partilhar com os nossos colegas, o nosso gosto pela matéria. Gosto que fora acrescentado com a partilha de experiências várias. Desta maneira, mostrámos disponibilidade em lhes recitar poesia. Só que infelizmente ninguém se mostrava muito interessado nisso. Ninguém queria levar com monumentais "secas", de poemas sofridos e plangentes, ditos por dois adolescentes imberbes, mas convencidos que já muito sabiam da vida, porque já muito haviam vivido. Esta situação poderia ter-se revelado, muito traumática para nós os dois. Mas nós contrariámos todo aquele processo. Era urgente reagirmos pela positiva àquela  rejeição e foi o que fizemos. Eles não queriam, mas poderia haver quem quisesse.
Foi com muita coragem e com uma imensa vontade de rir que decidimos que... estava na altura de procurar novos ouvintes para a nossa recém adquirida arte. Não tínhamos forma de entrar em qualquer espectáculo. Também ninguém estava interessado em contratar os nossos serviços, mesmo gratuitos. Pelo que, e de livro na mão, recitamos muita poesia na rua. Mas não nos limitávamos a ficar ali parados, numa esquina. Com uma caixa ou chapéu no chão à espera de uma potencial e bem merecida recompensa, não! Nós perseguíamos as pessoas que... pacatamente passeavam na rua. Sim. Nós tivemos a distinta "lata" de ir a recitar poemas atrás daqueles que sem nos conhecerem de lado nenhum, também não deveriam de ter... grande vontade em nos prestar atenção. Lembro com um sorriso bem rasgado no rosto o que nos acontecia nos dias de chuva. Queríamos espalhar a nossa arte, pelo que nos colocávamos debaixo dos chapéus de chuva das pessoas. Especialmente quando as mesmas passeavam acompanhadas. E lá recitávamos os poemas. Como não podíamos (nem devíamos) juntarmo-nos muito aos nosso potenciais ouvintes, levávamos com a força da chuva em cima das nossas costas. Mas isso não tinha qualquer importância, pois o que nós queríamos mesmo era espalhar a nossa sabedoria. Sermos solícitos e mestres de vida. Ficávamos com as costas todas molhadas. Apanhávamos com a água toda, contudo a nossa vontade de "poemar" era tanta, que justificava amplamente todo aquele sacrifício.
Tenho a dizer que não me lembro de alguém que nos tenha difamado. Alguém que tenha sido malcriado connosco. Houve mesmo gente que se riu às gargalhadas com a nossa actuação. Outros fizeram cara de pouco caso, mas nada disseram. Se calhar, acharam-nos suficientemente malucos para não sermos contrariados. Poderíamos com isso tornarmo-nos particularmente perigosos. E ninguém nos bateu. 
Mas houve um acontecimento que marcou toda a diferença. Certo dia, fomos a ler o seguinte poema, bem atrás de um casal de meia idade que alegremente se passeava pelo jardim.

O simpático casal, parou e ficou a olhar para nós. Nós dissemos o poema e eles ouviram-no atentamente e na sua totalidade. Enquanto lemos eles não fizeram qualquer comentário. Nós ficámos todos contentes com aquela aparente aceitação. Passado alguns instantes sobre o terminus do soneto, o elemento masculino do casal falou. E disse: "Coitados! Acho que a vossa vida, não deve de ser nada fácil. Não vos deve de correr nada bem. Segundo percebo, vocês devem de sofrer muito devido... ao amor. São contrariados no sentimento. Mas vejam as coisas pelo lado positivo. Pensem no dinheiro que vão poupar (e fazer poupar aos vossos pais), pois assim não se vão conseguir casar. E olhem que os casamentos ficam muito caros!!! E depois e consequentemente, também não se adivinha que venham a gastar qualquer quantia com... divórcios nem com... pensões alimentícias".
Recordo que tanto eu como o meu amigo demos uma grande e sonora gargalhada. E agora percebo: como aquele senhor tinha razão. Não me refiro ao facto de ser contrária à ideia do casamento. Nem sequer tenho posição formada nem elementos que me permitam perfilar-me numa posição absoluta e incontestada. O que eu sei é que, em tudo na vida há sempre um lado positivo. Há é que estar muito atento e... aproveitá-lo. Penso que esta teorização não é pura e falsa demagogia. Esta é que poderá e deverá ser tida, como uma verdade... absolutamente inquestionável.
Sugestão de leitura para esta semana: "A Amizade"  de Francesco Alberoni.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

 

PS: E não é que sonhei que ia outra vez para os Estados Unidos da América? Bem, ao que parece, tal situação poderá tornar-se...  numa realidade efectiva. Sair assim da condição de sonho. E como nós adoramos quando um sonho bom se torna realidade! Viajar assim com um grupo de gente bem simpática... E sem os "atropelos do costume".

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