Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Machu Picchu.

Há uns anos fui ao Perú. Fui ao Machu Picchu e adorei. É verdadeiramente um lugar mágico e singular. Sem darmos conta, fazemos parte integrante de um cenário que é indiscutivelmente um lugar de sonho. Na nossa cabeça e ao olharmos para aquilo formam-se várias questões. Como é que foi possível a construção daquelas cidades? Naquele lugar tão ermo e de difícil acesso? Perguntamo-nos nós a todo o momento. Como é que foi possível, o transporte de pedras tão grandes e pesadas para ali? Sem a utilização da roda? Como é que aquelas construções (e passados tantos séculos) ainda ali se encontram de pé e em tão bom estado? Aquelas construções foram de tal maneira bem feitas, que mais parece que os seus habitantes foram dar uma viagem em conjunto, mas que devem de estar quase, quase a chegar. E quando chegarem vão acabar de construir as suas casas, colocando-lhes finalmente o telhado.
Eu tive a sorte de lá ter estado. Ter vivido e sentido toda uma série de momentos que eu jamais esquecerei. E vivi ali um dos mais felizes momentos da minha vida. Não. Não vivi lá nenhum grande amor. Também não foi lá que me apaixonei perdida e irremediavelmente. Naquele local eu também não ganhei o Euromilhões. (Lá eu não vi reunidas as condições necessárias para se proceder à extracção das bolas numeradas). Simplesmente eu estive lá, vivi e senti de uma forma muito intensa toda aquela realidade. Foi já há alguns anos. Fui na companhia de um grupo de pessoas. Que eram muito simpáticas na sua grande maioria. E repito: adorei lá ter estado.
Durante a manhã tive oportunidade de, e durante um bocado, ter trilhado alguns dos percursos, percorridos no passado, por todos aqueles que em tempos bem remotos para ali se dirigiam a pé. Caminhos que ladeavam a montanha e ficavam situados em elevadas altitudes. No seu percurso existem grandes ravinas. Era pois muito conveniente...  não tropeçar. E depois há sempre todas aquelas pessoas a quem  faz muita impressão as grandes alturas e que ali iam, mas mais ou menos de olhos fechados. Parece-me que tal situação e atendendo às circunstância será... muito pouco recomendável. Poderá ser bem pior a emenda que o soneto.
Também tive oportunidade de percorrer outros caminhos vários incluídos naquela importantíssima estação arqueológica. Contudo foi à tarde que vivi ali os melhores momentos. 
Com toda a liberdade do mundo eu entrei novamente naquele espaço. Levava vestida uma daquelas capas de plástico transparente, pois haviam-me assegurado que à tarde iria chover. Ainda andei por ali um pouco sem chuva. Contudo e passado pouco tempo começou a choviscar. A chuva estava prometida. Durante algum tempo eu achei que poderia ser possível, continuar a minha caminhada pois... e uma vez que tinha a tal capa... Mas a chuva continuava a cair e era cada vez mais forte. Para me proteger e continuar ali por mais algum tempo, recorri ao abrigo de uma cabana com telhado de colmo que ali estava. A referida cabana era dotada de um grande banco de madeira colocado a todo o seu comprimento. Ao aproximar-me verifiquei que já lá estavam sentadas umas vinte pessoas. Mas com boa vontade as mesmas encolheram-se um bocado e arranjaram também um lugar para mim. E foi assim que eu tive oportunidade de vivênciar um espantoso "espectáculo" da natureza ao lado de pessoas da mais variadas proveniências. Pessoas que naturalmente eu não conhecia de lado nenhum. Notei ali presença de alguns norte-americanos, franceses, brasileiros e peruanos. Mas havia lá gente de todo o lado. E foi isto que eu vi:

Na base da montanha, começavam-se a formar densas nuvens. No céu estava um arco-íris. E nós ali. Mas a a "coisa" prosseguia.

Nós esperávamos que a chuva parasse. Ela era contínua. Mas nós estávamos protegidos na cabana. Depois da chuva, começou a subir uma grande nuvem desde a base.


E a densa nuvem começou assim e lentamente a elevar-se. Sempre a elevar-se. Desta feita a montanha tendia a ficar toda encoberta.

E o espectáculo continuava.

Não dava tréguas. As nossas bocas tendiam a ficar cada vez mais escancaradas. E os nossos olhos ficaram com muita humidade. Alguma proveniente das nossas bolsas lacrimais.

Ficámos sem ver nada. Por uns momentos eu pensei que ali poderia ser possível o regresso do D. Sebastião. Estava era um bocadinho fora de mão. Assim como direi? Um "niquinho" longe de casa. Bem, mas ele havia tido muito tempo para fazer grandes andanças... Contudo... e lamentavelmente ele não veio. Nunca vem. E passados alguns anos, quem veio... foram os homens da Troika. Que não se perderam por Macchu Picchu... Infelizmente!

Mas eis senão quando, a nuvem subia para a atmosfera enquanto que o restante nevoeiro  se começara a dissipar. E no céu formaram-se três belíssimos arco-íris.

Lindo não? No fim ficamos para ali a falar daquilo nas mais diversas línguas. Aquilo mais parecia a "Cabana de Babel". Aparentemente ninguém se entendia. Mas ali isso não tinha a mínima importância. É que havíamos presenciado a um belíssimo momento que nos iria acompanhar até ao final dos nossos dias. Tenho a certeza disso. Quanto a mim eu revelo que, muitas vezes e nos dias em que me encontro menos bem (que felizmente têm sido muito poucos), eu tenho a tendência de relembrar-me... daquela magnifica tarde. No fim de tudo aquilo, tínhamos mais uma vez a magnifica montanha (mas desta vez descoberta), à nossa frente.

Recordo ainda que enquanto estava a chover, caminhava por ali e pacientemente (sem revelar particulares preocupações), uma família peruana bem numerosa. Escusado será dizer que a mesma ia literalmente à chuva. Eu ao ver aquilo perguntei-lhes: "Mas o que é que vocês vão a fazer assim à chuva? Venham para aqui e sequem-se um pouco. Esperem que a chuva passe." Eu confesso, não esperei que eles me respondessem. Afinal o que é que eu tinha a ver com a vida deles?  Contudo o patriarca daquela família parou, olhou para mim e disse com toda a sua paciência e boa vontade que, iriam fazer uma cerimónia (creio que algo parecido com um baptismo), ao membro mais novo da família. Esta criança também ali estava claro. E como todos os outros também se encontrava à chuva.
E continuaram o seu caminho sem me darem mais qualquer atenção. É óbvio que não tinham mais tempo a perder. Especialmente com uma cara pálida e metediça como eu. Naquele local e por alguns momentos pensei elevar-me a uma outra dimensão que não a terrestre. E naquele dia eu vivi algo memorável. Singelo e totalmente gratuito. Que não constava no que havia sido programado. Eu vivi ali algo que jamais esquecerei.
Sugestão de leitura para esta semana: "Notícias do Paraíso"  de David Lodge. 
Divirtamsemazé!!! E vivamos com muita intensidade aproveitando o melhor que a vida nos vai dando. Eu pelo menos... vou tentar. Até para a semana.



Sem comentários: