Quando eu era nova, muito nova (11, 12 anos), eu tinha um extenso número de amigos, inseridos numa sociedade muito bem organizada. C. era uma rapariga "bué da fixe", que a dada altura descobriu que os pais não confiavam lá muito nos bancos, já que guardavam muito dinheiro em casa. Pelo que C. achou que se retirasse dali umas notinhas não haveria problema de maior. Foi desta maneira que nós descobrimos uma excelente e activa fonte de financiamento. O dinheiro jorrava quando víamos C. a nossa banqueira de serviço.
Enquanto durou aquele curto período paradisíaco, nós vivemos muito além das nossas possibilidades, consumindo em profusão, bens de primeiríssima necessidade tais como: granizados fá, petazetas, batatas fritas, gelados, chocolates e sumos. Desconheço se algum de nós tenha assinado algum vulgar papel azul de vinte cinco linhas, confirmando os empréstimos recebidos. Desconfio que não. Os empréstimos eram assim concedidos em prole do bem comum, sem avaliação prévia sobre as nossas reais capacidades de saldar dívidas contraídas. Alguns de nós ainda tinham uma ligeira noção sobre os perigos do endividamento excessivo, mas outros acharam-se no direito de receber um subsídio.
Mas... e como "Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe", os pais de C. acabaram por ir ao "esconderijo" dando assim com uma muito triste realidade: nas suas vidas havia agora um buraco financeiro de elevadas proporções. C. foi chamada a depor na boca de cena e teve que explicar aos progenitores toda aquela infeliz ocorrência. Naturalmente que não sei os detalhes da conversa, mas ouvi falar. O tempo de crise começara ali para todos nós, miúdos rufias e inconsequentes. Alguns de nós havíamos contraído mais de 40 empréstimos... Eu tremi de medo, pois se calhar estava chegada a altura de confessar aos meus patrocinadores naturais (pais), que os mesmos tinham dívidas de que nem sequer desconfiavam. Vi ali a minha vida a andar para trás. Depois veio o natural tempo de reflexão e de arrependimento: "quem me mandara a mim viver com aquilo que não era meu, assumindo uma identidade que naturalmente não tinha qualquer credibilidade no panorama económico do bairro". E com muito medo, eu decidi esperar.
Em relação à família espoliada, que sem saber creditara grande parte das crianças daquele lugar, conjuntamente com a filha traidora, elaboraram um plano de resgate muito próprio, nem sequer tiveram que pedir ajuda ao BCE ou ao FMI. Fizeram depois um Plano de Entendimento... Deles Próprios.
Quanto a nós, receio que tenhamos apanhado uma boa e eficaz lição. Uma vez que não havíamos assinado qualquer papel de contracção de dívida, não havia assim forma de provar a nossa real condição de faltosos. A minha amiga C. viveu muitooooooo tempo a "pão e água", teve que cumprir um plano de acção, onde constava um aperdadíssimo Plano de Austeridade, que incidiu totalmente sobre aquele Memorando de Entendimento. Tenho a certeza que pagou elevadíssimos juros, para aí a 60, 70%, com numerosas doses de chineladas bem assentes no traseiro, na primeira, segunda e até na terceira tranche. Quanto a mim, depois de toda aquela aflição veio uma certeza: não devemos nunca, embarcar em ilusões, por muito apetecíveis que elas nos pareçam ser. Não devemos também, contar com aquilo que não é nosso. Temos assim que olhar para o futuro e gastar com parcimónia. Além disso aprendi a dar muita razão àquele provérbio popular que afirma: "Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhes vem".
A propósito de tal temática sugiro a leitura do livro: O Enigma do Capital: Crises do Capitalismo" de David Harvey.
Divirtamsemazé e... já agora gastem poucochinho...

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