Há uns anos resolvi ir com a família a Fátima. Eu sou aquilo que se pode considerar de agnóstica: reconheço a possibilidade da existência de algo superior, contudo não sinto necessidade de personificar a sua identidade. Quis a sorte e o destino, eu ter nascido no seio de uma família que professa activamente a sua fé, indo com muita regularidade à igreja e rezando diariamente. Naquele dia, os meus familiares foram àquele espaço renovar os seus votos, na esperança de conseguirem uma vida melhor ou, pelo menos que a vida conseguida não piorasse, pois como já lá dizia o outro: "Para melhor, está bem está bem! Para pior já basta assim".
Sou uma rapariga dada ao riso fácil, gosto muito da risota e da diversão. Deus a existir é encontrado por mim nas pequenas e simples coisas. Eu não sinto necessidade de frequentar igrejas e capelas. Acho que também a haver Deus, ele já deve de estar um pouquito farto das mesmas fórmulas, das mesmas rezas sempre iguais. Deus a existir, deverá ser grande, infinitamente generoso e sem problemas de auto-estima. Contudo a minha tia dizia-me sempre e a este respeito: "Tem juízo minha filha, tem juízo, pois graças a Deus muitas, graças com Deus poucas." E aí, eu ficava sem argumentos, não é? Logo a minha tia que era mais velha que eu e andava sempre com o terço na mão...
Naquele dia assistimos à missa na Capelinha da Aparições. Enquanto isso eu pensava na minha jovem vida. Naquele espaço estavam religiosas em atitudes muito reflexivas, assim como membros da sociedade civil em atitudes muito religiosas. Eu teria à altura vinte e tal anos e estava ali, com respeito, seguindo a homilia, fazendo aquilo que me era pedido, dando a esmola etc, etc. Isto sem me estar a rir, o que é muito difícil para mim permanecer assim durante muito tempo com muita seriedade. A dada altura chega a parte em que o padre solicita à assistência que se cumprimentem todos uns aos outros. Beijinho no pai, beijinho na mãe, beijinho na freira da frente e... sinto um suave toque no meu ombro. Viro-me para trás e o que é que eu vejo? Atrás de mim estava só um dos homens mais lindos que me foi dada a oportunidade de ver na vida, acreditem. E o que é que eu havia de fazer? Bem, fora o padre quem solicitara a ocorrência de abraços e de beijinhos, ali naquele local, abençoado e visitado pela Virgem de Fátima. O Adonis, antes de me espetar dois beijinhos na cara, ainda me disse: "Na paz de Cristo." Ao que eu respondo: "Você é quem sabe, mas avaliando tanta beleza, acho que se deveria de dedicar mais a actividades belicistas e resgatar no mínimo uma meia dúzia de corações, é mais seguro." Resultado, rimos os dois o mais silenciosamente que conseguimos.
Já no carro o meu pai pergunta-me, de onde é que eu conhecia aquele rapaz da missa, com quem havia estado a falar. Tive todo, mas todo o prazer em contar toda aquela história ao papá, que colocando as mãos ao alto, se queixou do facto de ter uma estranha e inconveniente filha, que se dá ao péssimo hábito de rir nas mais inusitadas situações.
Foi assim e desta maneira, que esta pecadora e modesta criatura que se assina, também teve direito ao seu milagre de Fátima.
Contudo pondero agora a possibilidade de voltar a Fátima. É urgente. Então não é que um senhor na Quinta-Feira, veio à televisão dizer que me iam roubar o subsidio de Férias e de Natal? Nossa Senhora do Rosário de Fátima tem pena de nós. Peço-te encarecidamente que termines de vez, com os atentados a que este país lusitano tem estado sujeito, logo este país tão conhecido por ti... Eu confesso, agora faz-me muito mais falta o "pilim" que um qualquer Adónis desta vida.
A proposito desta temática recordo e sugiro a leitura do livro: "O Deus das Pequenas Coisas" de Araundhati Roy.
Se conseguirem... Divirtamsemazé.

Sem comentários:
Enviar um comentário