Certo dia, (e já lá vão alguns dois anos), eu regressava a minha casa do trabalho. Mas ao entrar no pátio que dá acesso à minha habitação, dou de caras com algo inusitado. Já aqui disse que tenho como únicos vizinhos, um casal muito idoso, (pertencente à quinta idade), que é também muito escrupuloso e chatinho. Ora no chão do meu pátio, abundavam pequenos pedaços de papel de jornal amachucado. Coisa aliás, nunca antes ali vista. Por um momento, julguei que os velhotes tivessem enlouquecido e estivessem a jogar aos petardos durante toda a tarde. Depois, achei que podia ter sido o vento a arrastar para ali tais destroços. Mas para evitar mais dívidas e mal eu vi os idosos residentes, perguntei-lhes o porquê daquelas inusitadas presenças. Recebi a resposta mais inusitada pela qual eu jamais esperara ouvir. O homem sénior, e já algo periclitante, andara durante toda a tarde a colocar os referidos papeis entre a parede e uma lâmpada. E qual o motivo? Pois o homem pretendia impedir um casal de andorinhas de fazer ali a sua Casa Estival. Ora era o velho a pôr os papeis, e as andorinhas a tirarem-nos de lá. Abençoadas! E andaram naquilo toda a tarde. Ora eu fiquei possessa. Porque raio é que se podem impedir tão graciosas aves de morarem onde bem entenderem? Já bem basta a espécie humana ter que pagar a habitação, e devido à sua aquisição, empenhar-se aos bancos até à hora da morte. Já bem basta o ser humano estar preso a uma terra e a muitas obrigações! Deixemos pois, as aves fora desses constrangimentos. E ali pedi ao vizinho, que não se incomodasse mais com a presença das aves ali. é que as mesmas , e a partir daquele dia seriam minhas hóspedes. E mais lhe disse: "pois que ficasse descansado porque eu garantiria a limpeza das aves, conceptualizada através da limpeza das paredes e do chão". Eu seria pois a empregada doméstica daqueles animais. E para concluir eu disse-lhe: "que nos podíamo-nos considerar muito orgulhosos por sermos escolhidos por tão graciosos passarinhos". E na mesma hora, eu fui comprar um balde, uma esfregona, uma vassoura e uma pá. O sénior franziu o nariz, mas como eu não tenho qualquer receio de más caras, deu-se por vencido e executou meia volta e marchou. E acabaram assim os jornais amachucados no chão do meu pátio.
A partir daquele dia eu fiquei com mais uma belíssima história para contar. Sem constrangimentos, o casal de andorinhas fez o seu ninho em tempo record. Não chegou a um dia para a sua conclusão. E era um assombro ver as constantes idas e vindas dos dois. No bico traziam pedaços consistentes de barro molhado e de mais ervas e palhas. Com aprumo eles colocavam aqueles seus materiais de construção nos sítios mais indicados. Construíram uma casa fantástica. Depois de feita, foi a vez de descansarem um pouco. Passadas horas, a andorinha fêmea ali ficou, pressupostamente a pôr os ovos. Acreditem, mas eu cheguei a acordar para ver se a bichinha ainda ali permanecia. E permaneceu. Depois foi a vez de chocar os ovinhos. E com que paciência ela ali ficou. Às vezes lá vinha o marido trazer-lhe o almoço, consubstanciado em algum insecto morto e apetecível à ingestão, pois devia de conter muitas proteínas. Mas delicioso foi verificar que a descendência por fim lá nascera e estavam os três muito bem.
Depois foi vê-los crescer. E lá ficava eu a olhar embevecida para toda aquela maravilha! Os pais numa azafama, traziam aos filhos o que de melhor conseguiam arranjar. E os pingentes numa barulhada constante e sempre de bico aberto. Demonstrando uma vontade determinada em vencer. Foi supremo assistir a toda àquela movimentação à volta de minha casa. Chegaram a vir outras andorinhas, necessariamente das relações do casal original. Deviam de vir dar apoio moral, mas também traziam comida no bico. E lá iam colocá-la na boca dos petizes. A isto é que se pode chamar de solidariedade. Temos muito a aprender com os animais!
Passados algumas semanas, era ver três aves gordas (pareciam bem mais gordas que os seus próprios progenitores), fortemente apoiados no ninho. Esperavam pacientemente... a coragem para voar?
A tudo aquilo eu assisti deliciada. Eu tive que cumprir a minha parte. E naquele ano eu fui a sopeira daquela família errante. E quando chegava do trabalho, limpava a pouca sujidade que aqueles passarinhos produziam. Limpava o chão e deleitava-me a olhar para aquela maravilha.
Depois foi a vez dos mais novos saírem finalmente do ninho. Primeiro iam muito a medo. Depois faziam voltas imaginárias. Depois com mais confiança. Primeiro um, depois o outro. E no fim já os três já voavam. Nascer, eles haviam nascido no beiral de minha casa, mas agora partiam, iniciando a aventura que é a vida. Por fim, lá foram embora. Ainda cheguei a ver uma ou outra ave, pousada no varal da minha roupa. Gostava de imaginar que era um dos pequenos, que se vinha ali despedir de mim. Depois, veio a ausência e a saudade.
Diz a tradição, que as andorinhas sempre regressam, mas no ano passado não o fizeram. Poderão vir para o ano que vem e trazerem com eles, outros membros da família. Trazerem uma família mais alargada. Se assim for, eu irei ter muito mais trabalho com eles todos. Mas enquanto não voltam, eu velarei pela segurança e pela integridade da casa deles. Casa que foi feita pelos próprios com muita dedicação. Quando regressarem a mesma estará exactamente como eles a deixaram. E não é que um dia destes eu subi lá acima, para limpar a lâmpada dos meus prestimosos vizinhos e vejo que o interior do ninho é tão fofinho?! Mais parece todo feito em veludo. Aquela obra era impossível de ser concretizada por mãos humanas atabalhoadas.
Pensando bem, as andorinhas não são nada parvas. E devem de estar muito bem informadas. É que nem para elas este país será recomendável, para o ano da Graça que há-se vir!
Sugestão de leitura para esta semana: "Fala-me de África" de Carlos Vale Ferraz.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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