Este é para mim um espectáculo absolutamente lamentável, e profundamente desajustado a tudo aquilo que deveria de ser. E como me custa, Deus do Céu, observar em certos Domingos de Estio, famílias (mas que felizmente, são cada vez em menor número), com crianças pequenas à espera e ao Sol, para poderem entrar no Redondel e irem assistir àquele espectáculo tão bárbaro.
E pergunto: O que é que objectivamente se ganha em ir assistir "àquilo"? Ver luta? Ver sangue a escorrer pelo dorso do animal? Depois ver que aqueles homens comemoram uma vitória, pois tiveram a ousadia e a coragem de ter defrontado uma fera? Mas qual coragem? Coragem para mim é poder socorrer o seu semelhante quando ele necessita. Poder ajudar os mais carenciados. Preservar a natureza. Erguer a voz contra as injustiças. Amar sem fronteiras, mesmo muitas vezes! Gostar mesmo quando nem se é assim tão admirado de volta. Agora espetar animais? Ver sangue? Ver sofrimento? Cruzes!
Que coragem e mérito poderá haver em se enfrentar um animal, visivelmente deslocado, pois é a primeira vez que vê uma Praça e tanta gente a gritar? Estar confortavelmente em cima de um cavalo, que coitado, também não pediu para estar ali, e que muitas vezes também sofre muito, pois é espetado o corneado? Tal é no mínimo funesto e inconveniente.
Há quem diga que é um espectáculo que tem que ser continuado em nome da tradição. Mas qual tradição? Tradição era também, e no Coliseu de Roma, colocarem-se em conjunto os cristãos e os animais selvagens. E depois esperava-se para ver o que acontecia, com muito entusiasmo. Será que alguém está interessado em recuperar tal tradição? Sei lá, mas fazer o espectáculo por tópicos, tipo: "Feras defrontam, membros da população que têm dificuldades em se locomover". Ou então: "Animais selvagens irão conviver com alguns membros da comunidade dos Inspectores dos Impostos", ou "Um touro delirante e provido de toda a sua real cornadura, irá ser apresentado aos excelentíssimos membros da Troika! Não me parece que seja algo bom de recuperar. Bem...
Há depois quem fale que o espectáculo tem que continuar em nome da continuidade da espécie. Que é como quem diz, se não existirem as touradas, desaparecerá a espécie do touro destinado a esse efeito. Mas eu questiono-me: "Qual será a legitimidade de se criar uma espécie para se poder torturar à vontade? Tal formulação tem a tendência de me poder levar a outros domínios, que necessariamente iriam defrontar-se com a ética. A liberdade na criação, poderia fazer com que se pudessem gerar verdadeiros monstros, criados para um fim especifico e absolutamente lamentável. Poderiam criar-se escravos, cuja principal e única funcionalidade era servir o Ser Dominante. Ou então criarem-se seres, que teriam como única função, poderem-se retirar os seus órgãos, quando deles houvesse necessidade...
Há depois quem diga, que devido às descargas da adrenalina, o touro nada sente com as crueldades a que é sujeito. Mas eu pergunto: "Como é que sabem isso? Alguma vez alguém foi touro (rsrs) para poder responder a isso, com tanta propriedade?" Se calhar, e vendo bem as coisas, touros há muitos e lamentavelmente todos eles poderão ser sumariamente gozados e espezinhados. É imperioso pois, defende-los a todos, assim como às suas particulares idiossincrasias.
Mas relativamente à temática das touradas, eu hoje venho aqui recordar um acontecimento que há uns anos me divertiu muito. Quase que me levou às lágrimas de tanto que eu ri. Eu fui assistir a um "Encontro com o (excelente) escritor" Mário Cláudio. E eu, que já gostava muito dele como escritor, comecei a admirá-lo ainda muito mais como ser humano na sua globalidade. Tudo porque o mesmo teve a coragem de colocar o "dedo na ferida", no seio de um concelho muito ligado à tradição taurina. E ele falou em algo, que eu jamais havia equacionado. E vejam bem: alguém já reparou na "roupicha" que os maganos dos toureiros envergam, quando estão na lide? São roupinhas algo estranhas, cheias de lantejolas, bordados, com muitos folhos e em profusão... depois aquelas calcinhas tão justinhas... Mais parecem umas leggs? E já para não falar nos chapelinhos deles! Com tudo aquilo, quererão os toureiros esconder alguma coisa? Com a exibição de todos aqueles figurinos? Eu não sei, mas apercebendo-me de mim enquanto leiga na matéria, e absolutamente incapaz de assistir a um segundo que seja daquele bárbaro espectáculo, não conseguiria colocar as coisas nos termos que o celebre escritor colocou. Mas ele teve a capacidade de (indirectamente) me abrir os olhos a toda àquela realidade.
Contudo e pensando melhor eu só seria capaz de ir assistir um bocado "àquilo", se se mudassem todos os paradigmas. Ou seja: Ao invés de se colocarem cavalos e ferros, ser só um desses toureiros, (ou até mesmo um grupo deles) a defrontar directamente um touro bravo. Seria só, touro e homem. O homem até poderia ir com as suas queridas... leggs, que lhe deixariam mostrar toda a sua masculinidade. Contudo ali não teria entrada: qualquer cavalo, ferro, espadas ou pampilho. Seria só, animal e ser humano, taco a taco. E eu veria ali entrar um imponente touro saído há minutos da Lezíria. E isso sim é que seria coragem. Mas eu tenho cá uma desconfiança de que o intrépido homem toureiro, no fim fugiria. É que ele não quereria de maneira nenhuma, romper as suas muito estimadas leggs e desmanchar todos aqueles imensos folhos e bordados.
Contudo e pensando melhor eu só seria capaz de ir assistir um bocado "àquilo", se se mudassem todos os paradigmas. Ou seja: Ao invés de se colocarem cavalos e ferros, ser só um desses toureiros, (ou até mesmo um grupo deles) a defrontar directamente um touro bravo. Seria só, touro e homem. O homem até poderia ir com as suas queridas... leggs, que lhe deixariam mostrar toda a sua masculinidade. Contudo ali não teria entrada: qualquer cavalo, ferro, espadas ou pampilho. Seria só, animal e ser humano, taco a taco. E eu veria ali entrar um imponente touro saído há minutos da Lezíria. E isso sim é que seria coragem. Mas eu tenho cá uma desconfiança de que o intrépido homem toureiro, no fim fugiria. É que ele não quereria de maneira nenhuma, romper as suas muito estimadas leggs e desmanchar todos aqueles imensos folhos e bordados.
Sugestão de leitura para esta semana: "Cavalos em Fuga" de Yukio Mishima.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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