Maria Ivete nasceu em Marco de Canavezes no início da
década de 40 do século passado. Sua vida foi algo semelhante à vida da Diva do
século XX, que nascera também naquela cidade. Só que Ivete nunca se habituou a
transportar chapéus de fruta à cabeça. Pois para tal, ela não tinha espaço.
Ivete teve uma vida muito complicada. Seus pais morreram
quando ela era ainda muito nova. Foi (e em consequência disso) criada por uma sua
tia, que era pouco maternal, mas de sentido prático e caridoso à sua maneira. E
Ivete teve a ventura de descobrir desde muito cedo, que a vida não era nada
fácil, pelo menos para algumas pessoas. Foi quando Ivete atingiu a maioridade e
sem ter noivo ou pessoa que a ajudasse financeiramente, que ela foi aconselhada
a rumar a Terras de Vera Cruz. Aqueles tempos eram difíceis. E se hoje também o
são, pelo menos hoje e regra geral, as pessoas têm competências (conseguidas
através do estudo), que lhe permitem adaptar-se razoavelmente às novas
realidades, presentes fora dos limites deste país pequeno e rectangular. Mas naquele
tempo Ivete tivera a possibilidade de estudar somente até à terceira classe.
E Ivete resolveu aceitar a sugestão. E conseguiu
através de muito trabalho, reunir a quantia necessária em dinheiro para ir para
o Brasil. Ao chegar lá, ela conheceu um senhor que era cerca de vinte anos mais
velho do que ela. Malaquias, era assim que aquele pagodeiro se chamava.
Malaquias tinha também as suas origens em Portugal, mais concretamente da
cidade de Lisboa. E tal como Ivete, ele decidira rumar a Ocidente, quando
reparou que para além de não ter grandes capacidades de crescimento na Lusa
Pátria, queria viver a vida e conhecer novas realidades e pessoas. E como Malaquias
tinha a “lábia toda”!
A vida havia sido generosa para com Malaquias. Não que
ele tivesse juntado uma enorme fortuna, ou tivesse essa ambição a curto prazo. Não!
O que Malaquias gostava era de aproveitar o que a vida lhe proporcionava. E se
ele não tinha grandes ambições, também não tinha muito espaço para ter… muitas
decepções. E já com quarenta e tal anos, ele continuava a ser um belo exemplar
de homem. Seco de carnadura mas não de sentimentos, ele conseguia mesmo, ser a
alegria de todas as suas vizinhas, fossem elas novas ou velhas, casadas ou
solteiras, bonitas ou feias. Ele de facto era o tal. E com muita regularidade, lá
ia ele a gingar pelas colinas abaixo. Sempre com um sorriso na boca assim como
uma palavrinha sedutora p’ró mulherio. Muitas vezes ele ia jogar ao jogo do
bicho. Umas vezes ganhava, outras vezes, não. Mas dava-se ao direito de
aconselhar os colegas, a fazerem jogadas precisas daquelas que dão dinheiro,
alegando que no momento ele estava a ser aconselhado por uma entidade divina da
sua predileção. Que variava entre o S. Judas Tadeu e o Oxumarê.
E Ivete não ficou nada indiferente ao charme do
“gajo”. Ela que também era graciosa à sua maneira. Não era, era nada seca de
carnes. Mas cedo descobriu que o Malaquias gostava de sopesar com as suas mãos
cuidadas, carnes generosas e ainda bem firmes. Pelo que passadas algumas
semanas, os dois resolveram fazer vida em comum. Só que Ivete nunca tivera a intenção
de deixar descendência. Primeiro porque havia tido uma infância bem difícil. Depois
porque também não tinha um sentido maternal lá muito apurado. E por último, mesmo que
tivesse esse sentido apurado pela maternidade, as condições de vida que eles
conseguiam ter, não eram muito favoráveis para que se educassem
convenientemente as crianças que seriam da responsabilidade deles. Foi devido a esse facto, que ela recorreu muitas vezes às chamadas “fazedoras de anjo”. É que o
Malaquias era danado. Não lhe dava assim muitas folgas…. Além disso, o uso do
contraceptivo não era assim tão divulgado. E os métodos que existiam para além
de caros eram bastante falíveis. E assim… os anjinhos lá iam, subindo progressivamente
para o céu. Mas fora isso, tudo decorria dentro da normalidade.
Mas foi num dia de grande intempérie, que a vida quis
pôr à prova a generosidade de Ivete. Lá fora chovia a cântaros. A casa de
Ivete, se bem que modesta estava assente em estruturas consideradas seguras e
fora feita com materiais de média qualidade. Coisa que não acontecia com
algumas das casas das suas vizinhas. E no meio daquela tempestade diluviana,
Ivete sentiu que lhe batiam à porta. E sem demora ela foi abrir. É que na sua
casa modesta e limpa, havia sempre espaço para mais alguém. Menos para os anjinhos. E ali, quem quer que
fosse que estivesse a bater à porta (e atendendo às
circunstâncias), deveria de estar mesmo muito aflito.
Aberta a porta, Ivete verificou que do lado de fora e absolutamente encharcada estava a
sua vizinha Rita. A mulher tivera a sorte de escapar à derrocada de que fora
vitima a sua própria casa. E Rita vivia sozinha lá no seu barraco. Mas corria o
boato de que ela tinha um arranjinho com o Manoel do Açude. Vá-se lá saber.
Pelo menos se assim fosse, ela deveria de ter algum desconto na conta da carne.
Agora era claro, a mulher estava aflita com toda aquela situação. Ver-se assim
na rua, sem a protecção de um tecto... Ivete recebeu-a vestindo somente uma
camisa de dormir (daquelas que chegavam aos pés e que tapavam o colo todo),
tipo túnica. Mas ao contrário da vizinha, estava bem seca e quentinha. E Ivete
convida a vizinha a entrar para a sua habitação sem mais delongas. Tudo
indicava que elas ali ficariam em segurança. E o Malaquias (sem que se soubesse
muito bem como), continuava a dormir na paz dos anjos. Sem demoras, Ivete fez
despir a vizinha das roupas encharcadas, ajudou-a a enxugar-se muito bem com
uma toalha que cheirava a alfazema. A Rita a tudo agradecia e ia esfregando vigorosamente o corpo, conseguindo estabelecer uma temperatura confortável. E
depois disso, Ivete foi buscar uma outra sua camisa de dormir, para que a vizinha
vestisse e ali pudesse dormir e acalmar os nervos.
Depois de tudo isto acontecer, a chuva acalmou. E as
duas foram dormir. A Ivete foi para a cama onde o seu Malaquias estava a dormir. E
a vizinha ficou a dormir na sala, em cima de uma enxerga, embrulhada em dois ou
três cobertores.
Só que passadas algumas horas, Ivete acorda com enorme vontade
de verter águas. Mas… estende o braço e descobre que estava sozinha na cama.
Naturalmente que o marido sentira também necessidade de esvaziar a bexiga. Nada
que não tivesse acontecido anteriormente, dezenas de vezes. Só que quando Ivete
passa pala sala, vê que a vizinha dormia a bom dormir e não estava sozinha. Ao seu
lado, Ivete conseguiu vislumbrar a cabecinha arguta e ainda bela do seu marido.
E muito abraçadinhos, eles ali permaneciam.
Mas vamos lá ver uma coisa: tal sucedido era compreensível.
E que a coitada da vizinha deveria de continuar a estar com muito frio. E nada
como o contacto físico e directo, com um exercitado e mui bondoso corpo humano.
Além do mais, não se poderia atribuir qualquer culpa ao Malaquias. Estava-se
bem a ver que ele se havia… confundido. É que na deambulação nocturna, ele havia
tacteado a camisa de dormir de Ivete. E havia-lhe reconhecido a natureza do
têxtil assim como as rendas em perfusão. E também não lhe fora indiferente… o
delicadeza do bordado. É claro que depois, e naturalmente… ele deitou-se. É que
não tinha mesmo razão nenhuma para desconfiar que aquela mulher que ali estava,
não era efectivamente a sua compagnon de
route.
Sugestão de leitura para esta semana: “Dona Flor e os Seus Dois Maridos” de Jorge Amado. Se bem que aqui a relação
é inversa à que foi concebida pelo magnífico escritor. Escritor que se fosse
vivo, completaria este ano o seu centenário.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
E acredite-se: o mundo ainda não está totalmente louco. Parabéns Barack Obama!

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