Tenho a graça de viver numa pequena casa de bairro, situada nas imediações da cidade de Lisboa. Coube-me contudo a sorte de ter como únicos vizinhos do edifício, um casal de idosos com 180 anos; ou seja, cada um conta com desvelo, noventa (graciosas) primaveras. Mas os maganos, contudo já são muito chatinhos, credo! Mas mantêm com eles, muita actividade e muito vigor. Como prova de tanta actividade é ouvi-los de noite, a irem com as suas socas para a casa de banho. É ouvi-los a arrastar os seus móveis, ao longo do dia, particularmente à hora das refeições. É ouvir-lhes as conversas por inteiro, que os séniores mantêm ao telefone com os seus inúmeros amiguinhos. Eu creio que eles falam assim e muito alto, pois já devem de ouvir um bocado mal. E em compensação a eles, irrita-lhes um bocado os meus inúmeros vasos que mantenho no pátio, onde os mesmos têm que passar. Incomoda-os sobremaneira, os meus lindíssimos brincos-de-princesa. E o velhinho, até já me advertiu que eu não posso as minhas "preciosas flores" assim tão grandes, pois as mesmas tocam-lhe e molham-no quando ele por ali passa. Coitadinho! Bem...
Mas o que os irrita mesmo muito os referidos velhinhos, é quando os outros vizinhos, que não eu, se põem a grelhar peixe. É que a mim, nunca me deu para assar peixe na rua. Eu que sou a única vizinha deles no prédio, mas há volta existem muitas outras habitações. E o que é que os velhinhos mais temem? Pois receiam ficar com as suas roupas e adereços a cheirar a sardinhas ad eternum. E mais, eles têm a capacidade olfactiva de reconhecer que os vizinhos que moram a 300 metros se preparam para assar um qualquer peixinho na brasa. E como ficam danados! E depois de dizerem dois ou três impropérios, eles lá vêm e recolhem com parcimónia, toda a sua roupinha. Estende-la-ao mais tarde, quando já não houver perigo de impregnação de cheiros na mesma.
Ora, num dia de Verão, andava eu toda contente a regar as minhas lindas flores. Envergava na altura um trajo egípcio. À cintura trazia um lenço com latinhas, que faz um barulho muito interessante mal eu me desloco. Mais parece que ando para ali... a tocar ferrinhos. É tão lindo! Acho mesmo que essa é a indumentária mais adequada para a realização da rega das minhas flores. Em tais ocasiões, eu consigo despertar o interesse e a atenção dos meus vizinhos. Mas com a repetição da indumentária, alguns até já se habituaram. Ora, andava eu naquela tarefa, quando entabuo conversa com a minha vizinha das traseiras. A mesma estava toda contente pois ia receber a visita dos seus filhos. Estava contudo e em simultâneo algo apreensiva, pois preparava-se para assar uma boa dúzia de carapaus. E logo na altura em que os meus vizinhos tinham a roupa a secar!... Eu, simpática como graças a Deus sou, prontifiquei-me a ir avisar os anciãos para que recolhessem a roupa. Mas tal não foi preciso, porque a vizinha ouviu toda a nossa conversada, naturalmente que se interessou pela mesma e fez ali aquilo a que ela própria se exigia. Ou seja recolheu a roupa que estava estendida, em três tempos.
Eu confesso, mantenho em mim um bocadito da rapariga rural e coscuvilheira que sou (características que recebi dos genes herdados dos meus preciosos antepassados), pelo continuei à conversa com a vizinha dos carapaus. E a conversa foi seguindo ao sabor do vagar, mas também da circunstância de haver boa vizinhança entre nós. Só que passados alguns minutos, a vizinha lá acaba por acender o fogareiro. E depois começa a abanar vigorosamente as labaredas. E eu curiosa, olho para o estendal dos vizinhos de cima. Mas o que é que eu vejo, Santo Deus? Pois, a roupa tinha sido toda apanhada... com a excepção das cuecas da vizinha. E porquê?
Perguntei-me a mim própria, mas também e aos gritos para a vizinha de trás. Ao que ela me respondeu a rir, que "já era costume ser assim".
Meus amigos, mas o que é isto? Bem, é capaz de tal facto, ter uma explicação muito lógica e incontornável. Se calhar é permitido (e até mesmo aconselhado), que as cuecas fiquem a cheirar a peixe. Tal até pode ser considerado muito sexy e até encorajador. Quem sabe se à noite e no calor da paixão, o meu vizinho não se chega à esposa e lhe suplica: "Alzira, amor, chega-te p'ra cá! Anda cá "melher"! E deixa-me cheirar o teu "carapau"? O problema é, se no melhor da festa, ele p'ra lá deixa agarrada... a sua dentadura!
Sugestão de leitura para esta semana: "A Sala das Perguntas" de Fernando Campos.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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