Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

É Natal! E eu ainda estou a tremer de emoção.


E mais uma época festiva se aproxima. É Natal! Mas de frases feitas e espectáveis, estamos todos nós fartos. O desejo de Bom-Natal é-nos matraqueado a todas as horas aos ouvidos, mas será que o mesmo desejo é sempre sentido?
Tenho um colega de trabalho que é comunista. Nada contra como é óbvio. Contudo ele é um daqueles comunistas fundamentalistas. Ou seja, não perde uma oportunidade para nos fazer crer a todos, que o remédio para todos os males se encontra na prática da doutrina marxista/leninista. É alguém muito honesto e excelente profissional. Muito distinto e integro. E é comunista. E convenhamos, aqui não há lugar a qualquer contradição.
Contudo este meu colega A. não acredita em nada que seja extra-terreno. Ou seja, para ele não há lugar à possibilidade da existência de alguma entidade superior a nós, que regulamente ou simplesmente testemunhe... todo este nosso caos. Para ele, e para muitos dos seus pares, todas as explicações para a funcionalidade daquilo que presenciamos, está em nós, assim como nas nossas vontades e acções. O que existe, está somente posicionado no aqui e no agora. E a igreja para ele é mesmo: "o ópio do povo". E para todo aquele que o quiser ouvir, ele lá vai desenvolvendo essas suas teorias. Mas é de tal maneira convicto, que por vezes nos chega a enfadar com as suas prédicas. Mas como também tem um excelente sentido de humor, no fim o ambiente nunca se deteriora. E assim ele lá vai falando mais uma vez de: Marx, Engels, Cunhal, Jerónimo de Sousa... assim como nas lutas de classes. E na Festa do Avante.
Mas A. deve de festejar o Natal, é claro. Só que se calhar no seu presépio em vez de se celebrar o nascimento do Menino Jesus, pode-se celebrar o nascimento do Lenine. Que naturalmente não se deve de ter dado num estábulo, nem em Belém da Palestina, nem sob o signo de Capricórnio... Mas que à sua escala também foi um acontecimento importante e motivo de celebração. Era assim que eu pensava, quando o via a sair do meu local de trabalho, por alturas natalícias, quando A. me desejava... um "Feliz Natal."
Ora o Natal deve de ser vivido por todos, mas de forma diferenciada. Só pode. É que eu confesso, a mim, faz-me muita confusão todas aquelas enchentes nos Centros Comerciais. Quando todos se entre-chocam na busca da prenda mais adequada. Pessoas que não se importam de empurrar o seu semelhante na luta pela perspectiva de uma simples compra. Ou fazem mesmo um pé-de-vento quando o outro (inadvertidamente), lhes passa à frente na fila para o pagamento. Ou então quando se briga na luta pela compra da última filhós, ou bolo-rei. Tudo isso me faz muita confusão. E para esse "peditório", perdoem-me, mas eu recuso-me a contribuir.
Para mim o espírito de Natal  não é esse. Ainda mais tendo uma família muito reduzida, não sinto em mim nenhum espírito de Natal muito evidenciado. Mas lembro-me muito bem dos Natais passados. Sem ser ainda muito velha, mas ultrapassando já a barreira dos trinta, eu ainda sou do tempo em que o Natal não era nada do que foi até aqui. Lembro-me de ser pequena e de estar à lareira na companhia da minha avó e de mais parentes. A minha avó que tinha uma grande diferença de idade de mim, pois havia sido mãe já muito tarde. Ela cantava para nós salmos, e outras modinhas de Natal do tempo dela. E não havia ali lugar a grandes e numerosas prendas. Recordo com muita saudade estar à lareira enquanto ela fritava os doces típicos, que eram somente de uma qualidade e que duravam até à altura dos Reis. Lembro-me muito bem da sua voz grave evidenciada nas cantorias, assim como o seu jeito severo de ser. Jeito esculpido pela forma de vida dura e campestre, em que os agricultores (como era o caso dela), se entregavam às "vontades do Divino". E se a lavoura se fizesse com situações climatéricas agrestes que a definiriam como fraca ou inexistente, não passava pela cabeça de ninguém pedir nenhum subsídio. Recordo-me também muito bem, dos "sermões" que essas pessoas simples me davam na altura. Alturas em que me pediam encarecidamente que respeitasse toda a gente, mas muito especialmente as autoridades locais, como era o caso do Presidente da Junta. Que era ali tido quase como um rei. E como eu era rebelde, Deus meu! Até com esse eu andei às turras num certo dia! Mas contarei essa história mais tarde.
Nas frituras dos filhós, a minha avó aproveitava ainda para me contar histórias vividas por ela na sua meninice. E ela era matreira, a diacha! E como foram deliciosos esses tempos!
Mas antes dessa noite magica, havia uma série de procedimentos a realizar. Dias antes (mas não muitos), a criançada ia cortar um pequeno pinheiro à serra. Bem sei que tal atitude é muito pouco ecológica, mas era assim que se fazia nesse tempo. Mas não a decorávamos com os enfeites feitos em série e muito brilhantes da actualidade, nada disso. A árvore era decorada com pedaços de algodão que imitavam neve, e bogalhos enrolados em papel de prata. Daqueles que servem para envolver chocolates. Sim, ainda havia dinheiro para a compra de um ou outro chocolate, mas também aproveitávamos os papéis que encontrávamos na rua. E a iluminação? Bem uma pequena lanterna, dava um certo ambiente assim como... todo um colorido monocromático. Faziamos também o presépio, usando como base o musgo que também era conseguido, na ida à serra. E as personagens? Bem, as figuras originais conviviam alegremente com as da actualidade. Recordo por exemplo que uma vez, o Pato Donald ocupou mesmo o lugar do Menino Jesus, porque a figura do Menino Jesus se havia partido. Nesses presépios até a Maga Patalógica tomava acento. E como nós ficávamos radiantes com o resultado!
Hoje mulher adulta e despojada de subsídios, assim como também de parte considerável do meu salário, vejo-me bastante mais atenta a tudo o que me rodeia. Mas foi já há alguns anos, que eu decidi estabelecer prioridades para esta época festiva, para a continuidade da minha sanidade mental. É que eu considero ter mais que o suficiente para ser feliz. E os que me rodeiam também. E além disso, eu não tenho vocação para correrias em shoppings nem em outras superfícies comerciais. Por isso, eu decidi presentear somente, aquele que é mais despojado do que eu. Mas não o faço abertamente. Eu explico melhor: É que eu compro somente prendas para quatro crianças que eu não conheço. Só lhes sei o nome, assim como da sua condição de carenciadas economicamente. Ora eu, atempadamente sou informada dos desejos dos petizes, compro-lhes (dentro das minhas possibilidades), as prendas ambicionadas. E depois disso eu levo-as a um local pré-estabelecido. A partir desse ponto, já não é nada comigo. Ou seja, alguém recepciona os presentes e fará com que os mesmos sejam entregues aos pais das referidas crianças. Serão exactamente esses pais, que darão as referidas lembranças aos seus rebentos na noite de Natal. Resumindo: eu sou a parte menos importante do processo pois só as comprei. Sirvo somente como fio condutor. E depois desse procedimento, eu fico muito feliz. E fico mesmo com a convicção de dever cumprido. Só desta maneira eu consigo dar algum valor ao Natal. E envolver-me um pouquinho no "tal do espírito".
Devido a isso, aos meus familiares e amigos, eu não dou prenda nenhuma. Dou-lhes somente um envelope informando-os que a prenda deles, foi terem dado uma prenda ao menino Pedro, ou à menina Sara. E os meus familiares também acham alguma piada a esse seu envolvimento forçado.
E em relação ao consumismo natalício, eu fico-me por aqui. Só que nestas alturas eu gosto muito de ouvir coros a cantar. É que eu aprecio imenso, as melodias natalícias. Pelo que, e uma vez que não ando em Centros Comerciais, tenho tempo para assistir às actuações que desejo presenciar. Tenho inclusivamente uma agenda onde coloco toda a programação. E senhores! Como este ano foi pródigo em actuações de coros, na cidade onde eu resido! Pelo que não resisti e fui ouvi-los: ao Museu, à Quinta Municipal, à Igreja Paroquial... E deleitei-me bastante com algumas das referidas actuações.
Ora foi justamente na cerimónia realizada na Igreja Paroquial a que mais foi do meu agrado. A finalidade da mesma era a solidariedade para com as organizações filantrópicas locais. E os coros ali eram mesmo bastantes. As actuações sucediam-se assim umas às outras. Primeiro o coro das crianças, depois o coro da Freguesia A, depois o coro da colectividade B, e assim sucessivamente. Os membros do coros, chegavam-se ao altar, passeando-se pela ala central. E como eles iam todos garbosos! As senhoras, vestindo túnicas e lenços bonitos. Os homens também muito elegantes e com gravatas a condizer. E depois já lá no altar, ocupavam os seus devidos lugares, abriam as suas canoras gargantas e punham cá para fora melodiosas canções da melhor maneira que conseguiam. E foram nisso (e na sua grande maioria), muito bem sucedidos. Eu que até gostava também muito de cantar num coro... Só que ainda não tive a coragem necessária para dar esse passo. E era com muita admiração, que eu lá ia vendo, a passagem de toda aquela gente bem intencionada, solidária e cantante.
E os minutos iam-se assim passando. Mas de repente eu vejo alguém que se parece muito, com uma pessoa que eu conheço muito bem. Só que rapidamente tirei daí a ideia, porque essa pessoa não poderia nunca estar ali, naquele ambiente. E espero pacientemente que todos ocupem os seus lugares e comecem dali a cantar. E foi só, no momento em que todos já estão no altar, prontos para a cantoria, que eu o reconheço efectivamente. Mas seria possível? Meus amigos, a minha boca não se conseguia fechar tal era a admiração por mim sentida. Perguntei-me inclusivamente a mim própria, se não estaria porventura a sofrer de algum tipo de alucinação? Pois não estava. É que os meus olhos fieis, não me estavam a enganar.
O meu colega, admirador máximo da teoria marxista e leninista estava ali. Mas agora estava a adorar o nascimento do Menino Deus. Cantava e maneava os ombros em simultâneo, para dar mais ênfase a todo o ocorrido. E chegou mesmo a cantar um... "Aleluia".
Meus amigos e com todo o respeito, mas eu ali... vi a Luz. Senti mesmo... a Presença Divina. E fiquei absolutamente convencida que tudo, mas mesmo tudo é possível de acontecer nesta vida. Basta acreditar! Só que eu tenho aqui que dar também, a minha mão à palmatória. É imperioso. É que eu confesso: também ali... eu me fartei de rir.
Sugestão de leitura  para esta semana: "Jesus Cristo Bebia Cerveja" de Afonso Cruz.
Bom Natal para todos, com saúde, paz, amor, alegria e cobres para os gastos. Mas por favor não se esqueçam: DIVIRTAMSEMAZÉ!
 

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