Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

domingo, 31 de março de 2013

A Páscoa.


Sempre gostei da Páscoa. Actualmente até gosto bem mais da Páscoa que do Natal. E quais os motivos? Na Páscoa o tempo tem a obrigação de já estar primaveril. O que não corresponde minimamente à realidade neste ano especifico de 13. E para além disso, não há a necessidade de comprar prendas para ninguém. Mas isso é-me bastante mais antipático nos dias de hoje, do que nos tempos de outrora. Contudo eu confesso, os costumes próprios desta época eram e são-me muitíssimo simpáticos.
Recordo-me (com um sorriso rasgado no rosto), de Páscoas passadas. Páscoas que remontam aos meus anos mais verdes. Passadas no meio rural, onde quase nunca se podia contar com a presença de Papi, pois Papi trabalhava em regime de turnos. E invariavelmente, ele ficava na Grande Metrópole.
Recordo com saudade, as preparações levadas a cabo, para que os costumes da época não saíssem gorados. É que havia muito a fazer por essas alturas. Mas a parte mais importante do costume, era exactamente o aprumo das casas para a recepção do pároco. As casas eram minuciosamente limpas e decoradas. Muito mais do que em outras alturas. Só porque o padre lá ia. Sempre achei que (e atendendo às circunstâncias), o padre era dotado de um olhar de longo alcance, que o faria detectar a presença da mais pequena sujidade, ou do mais insignificante... pó cósmico. É que eu achava que ele era diferente de nós. Ele falava directamente com Deus. Tinha muito mais conhecimentos e era capaz de ser por isso, muito mais abonado do que nós, simples mortais. 
Só que o padre não podia entrar em nossas casas como se fosse qualquer um, ah pois não! Ele tinha que contar sempre, com um tapete de flores que pisaria com prazer, enfiado nos seus sapatinhos sacerdotais. Dizia-se que era a maneira do padre saber se era ou não bem recebido nas casas. Casa que não tivesse tal revestimento à entrada, era capaz de ser casa de ateus ou de gente demoníaca. Ou então era casa de quem gostava mais de ver as flores muito vivas e no campo, do que a serem espezinhadas. Sem apelo nem agravo. Espezinhadas por pés sacros e santificados, é verdade. Mas espezinhadas!
Mas nem a Mãe, nem a Avó estavam enquadradas nessa categoria de gente meliante e transgressora. Não senhores! Pelo que bem perto do dia do Páscoa, nós íamos ao monte ou ao Lajão, buscar as ervas mais verdes e viçosas. Das quais não podiam faltar os pequenos malmequeres e os vaidosos lírios. Os lírios que foram sempre designados pela Mãe, de cucos. Nunca ouvi mais ninguém referir-se a eles dessa maneira. Além disso os jarros, ou os vulgares copos-de-leite, levavam por aquela altura, um grande desbaste no jardim.
Mas para o revestimento mais primário, que era aquele que servia de suporte, a erva escolhida era invariavelmente... o junco. Essa é uma erva, que se acredita ser capaz de sinalizar a presença de água, no subsolo. É uma erva muito comprida e fina. E que quando se corta, se se não tiver cuidado, fere facilmente as mãos. Havia pois de ter o máximo das precauções. Pelo que não era tarefa indicada, para as mãos inexperientes das crianças.
Depois de apanhado e transportado, o junco era colocado e espalhado à entrada da porta. Todo ele muito bem compostinho. Por cima eram colocadas as flores. E naquele processo eu vi por algumas vezes, ameaças de ocorrência... de tombos. É que o tal do junco em contacto um com a outro, e ao ser pisado, é bastante escorregadio. Pelo que eu sempre achei muito suspeita toda aquela solução. É que vendo bem as coisas, se o padre não tivesse cuidado, se houvesse alguma humidade, o seu trambolhão poderia mesmo ser efectivo. É claro que sendo ainda muito pequena, ninguém queria saber muito, sobre as minhas conjecturas ou preocupações. E se o padre caísse? E depois...? Se calhar não seria o primeiro. Vendo bem as coisas, quem sabe se esta não seria uma boa forma, dos leigos se vingarem do seu pastor? Quem sabe se por ainda estarem sentidos, devido ao facto de terem sido vitimas de alguma penitência exagerada. Ou então por estarem revoltados com um sermão considerado menos feliz? Onde ele só falasse em política? Ou aconselhasse a direcção a ser tomada num processo eleitoral qualquer?
Contudo não me recordo de alguma vez ter acontecido alguma queda do padre naquelas circunstâncias. Nem naquela nem em outras. Os padres devem de estar (e por inerência), bastante salvaguardados.
Da mesma maneira, eu também não me lembro, da visita pascal se ter dado alguma vez... no próprio dia da Páscoa. O padre à nossa casa, ia sempre com alguns dias de atraso. É que ele tinha muitas casas a visitar. Que eram bem mais próximas à da sua residência. À nossa casa e à dos nossos vizinhos, ele vinha sempre durante a semana a seguir ao dia da Páscoa. Quando as flores que ele pisaria, até já se encontravam... meias murchas. Mas os bolos secos e o vinho fino, ainda permaneciam bem arrumados em cima da mesa.
Era nessa altura que o padre se esforçava em nos oferecer uma... singela amêndoa. Nada mais do que uma simples e singela amêndoa. E na minha cabeça de menina ingénua e pouco conhecedora das coisas da vida, formulava-se sempre uma questão: Porque é que o padre era tão pouco generoso, tendo em atenção todo o trabalho que ele havia provocado? Devido à ocorrência de tal dúvida (e por algumas vezes) eu senti um certo ensejo em recusar a sua "singular"  dádiva. E será que com todas aquelas visitas, o padre tinha oportunidade de lavar convenientemente... as mãos? Só que longe de mim, fazer tal ofensa ao senhor prior! A Avó e a Mãe podiam até passar mal, com a demonstração daquela minha tão grande mal-criação. Ainda mais, eu chegava mesmo a acreditar, que se protagonizasse tal acção, eu corria o sério risco de fazer o pecado maior de todos. Justamente aquele pecado que não poderia nunca conhecer... o perdão.
Mas era exactamente no dia da Páscoa, e só nesse dia, que nós éramos visitados pela prima da Mãe e pelo seu quinto ou sexto marido. Sim, a prima da Mãe era uma mulher liberal. Que se não gostava, mudava facilmente de companhia, claro está! Contudo tal realidade,  era considerada como um comportamento muito ousado. Que ali nunca fora visto. Pelo menos naquela minha aldeia. E ainda mais quando só se estava a vivenciar... a década de setenta do século passado. Mas cada um de nós fingia quanto podia.
E como aquele inusitado casal, ia sempre carregado de mantimentos! Nunca se combinava previamente tal visita. Mas nós sabíamos sempre que à data prevista, eles lá acabavam por aparecer. Só não traziam era o vinho, pois contavam sempre com o vinho da casa. E como se gostava de vinho! Nunca os vi a dizer qualquer disparate, mas de uma vez ou outra, houve alguém... que vomitou.
A nós crianças pequenas, davam-nos invariavelmente um pacote de amêndoas. Um pacote inteiro de amêndoas e para cada um de nós! E se as amêndoas faltassem, o marido da prima ia sempre comprar mais. Recordo ainda o esforço que fazíamos para que aquelas amêndoas durassem o mais possível. E deixávamos sempre para o final, as amêndoas cor-de-rosa e as amarelas. Relembro ainda o dia, em que o pequeno J. mentiu descaradamente, dizendo que ainda não havia recebido o ambicionado pacote. Devido a tal ousadia, e nesse ano, aquele moinante, teve direito a duas doses inteiras daquela tão apreciada guloseima.
Mas tudo mudou. Nós crescemos. Agora a Páscoa dos dias de hoje é bem diferente da vivenciada noutros tempos, lá isso é verdade! Tem muito mais chuva e muito menos visitas pascais. Às vezes até já nem dá assim, tanta vontade de rir. Mas o importante mesmo, é continuar a resistir. Mesmo tendo como cenário, estes tempos hostis, que ameaçam permanecer ad eternum entre nós. E da dificuldade... nós faremos a força.
Sugestão de leitura para esta semana: "Dentro do Segredo: uma viagem à Coreia do Norte" de José Luís Peixoto.


Uma Boa Páscoa para todos. E... DIVIRTAMSEMAZÉ!

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