Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 22 de março de 2013

Quem anda cego de amores, não sabe se é noite ou dia…


Esta coisa do amor é bastante complexa. E chega a ser algo bastante incompreensível, mesmo. Como surge? Quando nasce? Senti-lo por uma pessoa e não por outra? Senti-lo pela pessoa mais inadequada do mundo? E achar-se que era justamente com essa pessoa, que se seria muito feliz! E para todo o sempre! Quando e… (se a coisa se realizasse), havia de ser o bom e o bonito! O que vale é que passado algum tempo… a coisa lá acaba por passar. E siga a fila!...
E a demonstração dos afectos tem acontecido ao longo de toda a História da humanidade. E é por isso mesmo… que nos é possível… ter História. Nos tempos recuados da Pré-História, que é justamente todo o período anterior ao aparecimento da escrita, a coisa devia de ser mais ou menos informal. E a prática foi exposta inclusivamente nas paredes, em pinturas rupestres de elevado sentido estético e explicativo. Não será mesmo nada de estranhar, que a coisa se fizesse sem o necessário (aos nossos olhos), acordo de uma das partes. E é com facilidade que eu imagino o seguinte:
A mulher andava atarefada na gruta. Empurrava para a rua os restos da última refeição: destroços de ossos e partes das vísceras de animais (das que a família não apreciava muito), com uma vassoura. Vassoura que fora conseguida através do corte de um imponente ramo de árvore. Em cima da pele, a dama teria somente uma outra pele (mas de animal irracional), que se seguraria em si, apenas devido à execução de alguns nós e costuras muitíssimo rudimentares. O uso daquela vestimenta desafiaria a todo o momento a própria Lei da Gravidade. E a mulher primitiva, lá ia andando naquela sua lida. Abanicando suavemente o seu traseiro, ora para um lado, ora para o outro. Quando se baixava, deixava mesmo a descoberto… grande parte das suas vergonhas (que era como a minha tia se referia à parte externa do aparelho reprodutor feminino). E quando o homem chegava da caça, arrastando atrás de si um animal de médio porte, é que a coisa se poderia dar. Não será de todo displicente, imaginar o homem a pegar à força a mulher e a executar o acto sexual ali na gruta. Ou mesmo fora dela, quando a mulher viesse de realizar uma outra azáfama qualquer. Fosse ela apanhar a salsa ou a hortelã… O abuso poderia também dar-se com um vizinho, que também, corria o risco de ficar com o seu apontador pessoal… em riste, mal avistasse a sua vizinha jeitosa. E a função dar-se-ia mesmo, ao som de um enigmático uga-uga, corresponsável pela vinda (ou não), de um rebento, sensivelmente nove meses após tais ocorrências.
Muitos anos passados, e vêm a época da descoberta e da difusão da escrita. A possibilidade de se comunicar à distância (com o transporte do suporte da escrita) aumentaria sensivelmente. É também muito mais fácil, transmitir o conhecimento da altura para épocas vindouras. Surgiriam as chamadas sociedades Pré-Clássicas onde o amor aconteceria também com alguma naturalidade. É que fora sempre necessário garantir a perpectuação da espécie. Pelo que, Sumérios, Assírios e Egípcios, foram-se amando entre si, para contentamento de todos. Ou pelo menos para alegria de todos aqueles… que tinham mais sorte.
Advém a Época Clássica. Com os gregos e mais as suas prédicas filosóficas. Surgiria assim também uma nova definição de amor. Que estaria de acordo com aquilo que o amor para eles significava. Assiste-se à assumpção de uma sociedade, onde a vida pública era garantida pelas acções efectuadas maioritariamente pelos seres que pertenciam ao sexo masculino. Aparece a ideia de “amor” agregada de alguma maneira, à ideia de transmissão de conhecimento e de sabedoria. O acto em si, para além de proporcionar prazer (desejavelmente), fazia com que os seres se ligassem através de laços à partida pouco compreensíveis aos nossos olhos de seres viventes do século XXI. Onde o homem velho, que tinha sabedoria deixada pela experiência de vida e aquisição de conhecimentos, se alicerçava ao jovem, que sem ter ainda grande sabedoria, pois ainda não havia tido muito tempo para tal, tinha a beleza da juventude. Ou seja, aquela ligação era completada pelas faltas de um em relação ao outro. E a inversa também era verdadeira. Só que assim não nasciam meninos, não é?
Aí mulher era tida somente, como o “receptáculo” capaz de gerar a vida. E geraria assim (ou não), um jovem que poderia fazer as delícias de um homem mais velho, ou mesmo idoso. De um sábio por definição. A noção de pedofilia acabaria por não ter aqui grande oportunidade. Já que a “coisa corrente” era tida como normal. Bem…
Vêm os Romanos e mais os seus bordéis. A mulher (e a das classes dominantes) era tida como a que pode disfrutar, tal qual o homem do prazer do sexo. Estaria contudo e ainda, num patamar bem inferior ao do homem. E como em todos os tempos, existiram também muitos homens e mulheres, que apreciavam muito a companhia e a acção de outras… pessoas do mesmo género que o seu…
Advém o Cristianismo. Surge a noção de que se deve de amar o outro como a si mesmo, e a Deus sobre todas as coisas. A monogamia surge também como acto preferencial. E o lema: “crescei e multiplicai-vos”, acaba por transformar-se num verdadeiro… mantra. E quanto a manifestações amorosas? Bem, tudo indica que atendendo às circunstâncias, as mesmas deviam de ser praticadas... com um certo decoro. A par de tudo isso, vão-se mudando outros paradigmas, de acordo com os movimentos da conversão à Nova Lei.
Depois surgiria o amor cortês. Adviria a Idade Medieval, e a vida fora das cidades. Criaram-se novos e diversos aglomerados populacionais. Assim como foram construídas, alguns dos grandes edifícios religiosos, tais como conventos e catedrais. Paralelamente a isso, aconteceram e continuariam a acontecer, os casamentos por conveniência. E a poesia trovadoresca surgiu, e deu algum colorido, à própria noção de amor. Pelo percurso, ficaram conceitos apenas aproximados, ao amor tido como natural na contemporaneidade. E para todo o sempre, perduram os versos do homem que cantou à humanidade, todo o amor que sentiu por determinada mulher. Que na grande maioria das vezes, até lhe era inacessível. E quem é que não gosta (e só uma vez por outra), de ouvir relatar um amor contrariado e impossível?
Por outro lado surgiram relatados os afectos vividos pelas mulheres. Só que era sempre o homem que versejava, claro está. Mas nesta circunstância, fazia-o como se se tratasse de facto de uma mulher. Nessas Cantigas de Amigo, falava-se dos sentimentos delas. Sentires que eram por definição, sofridos, recônditos e quase inconfessáveis…
E o amor? Acontecia de facto? Na grande maioria das vezes, ele não deveria de passar do papel. Já que outras pessoas, (mais concretamente os seus familiares mais crescidos), haviam previamente determinado um qualquer casamento ideal para o seu descendente. Casamento profícuo onde se enleava na perfeição, a junção de riquezas abundantes e/ou situações de poder.
Vêm o Renascimento, e a recuperação de muitas das premissas do que havia caracterizado a Época Clássica. Vem depois a época do Iluminismo, com o homem a exceder-se a ele próprio. O excesso e o grandioso foram ali temas bastante apreciados. Surgiram as cortes do Rei Sol, a imponência e todo o glamour… de Versailles, a Maria Antonieta, o luxo, o vício e os disfrutes correspondentes…
Seguir-se-ia o século XIX e o Romantismo. Vem a ideia de que o amor é correlacionado a algo periclitante e capaz de tirar o sono e a energia a quem dele pudesse padecer. Amar significava… sofrer. Só quem sofresse, demonstrando profundíssimas feridas no corpo e… na alma, é que amava verdadeiramente. E morria-se… de amor! O cenário aconselhado era o das sombras e da negritude. Que num jogo encoberto, trouxera para a ribalta o amor sofrido, contrariado e impossível. E se assim não fosse… já não tinha qualquer graça, definição ou oportunidade. Naturalismo, Realismo... Hellas!…
Depois veio o século XX com todas as suas numerosíssimas invenções tecnológicas. A vida gradualmente tornar-se-ia mais confortável, para um número crescente da população. Se bem que também foi nesta centúria, que se deram as guerras mais terríficas e globalizantes. Que vitimaram tantos milhões…
Foi o século em que a comunicação se tornou muitíssimo mais eficaz. E os mais variados conceitos espalharam-se assim… como o vento. E com eles, deu-se também a ampla difusão de termos e formas de amar, através das novas formas de se comunicar. Os meios de comunicação trouxeram, para além do facto de aproximarem realidades muito distantes entre si, a de terem demonstrado que o que é vivido num espaço no que concerne a afectos, é capaz de ser semelhante ao que acontece numa outra latitude diametralmente oposta. E se não é idêntica, poderá muito bem passar a ser. Pois acaba por “trazer à baila” a difusão de novas realidades que poderão eventualmente… ser levadas em linha de conta. E até à prática…
Mas vendo bem as coisas, no fundo, parece-me que os que nada tiveram de seu, se calhar e em todas as épocas, foram os que puderam ter mais liberdade para amar. Muitas vezes nem tiveram a possibilidade de firmar institucionalmente, a sua ligação no efectivo contrato. E uma vez que eles eram “assim tão pobrezinhos”, juntavam qualquer trapinho roto que tivessem, àquele/a que também reunisse, essa mesma [sua] condição.
Pois, o tema amor foi algo que atravessou transversalmente toda a vida do homem na terra. Terá necessariamente variantes de acordo com o tempo que se vive. Mas a relação homem/mulher é velha, perdura e aconselha-se até muito… que tenha futuro. Só desta maneira é que se podem reunir condições para se evoluir. E o progresso (ou até mesmo o retrocesso actual), tornar-se efectivo. Tendo como base… o truca-truca.
Pois vem todo este arrazoado de lugares comuns (porventura pouco interessante e quiçá até maçadores), a propósito de algo que eu testemunhei já há alguns anos atrás. O passeio dava-se na Ilha de São Miguel, Açores. Fora-nos necessário, calcorrear os inúmeros e lindíssimos lagos e lagoas que por ali abundam. Fora-nos imperioso, observar… todas as flores, plantas e leguminosas. E muitas vacas, nós conhecemos, meus miguinhos! Fora-nos fundamental, ir conhecer as plantações dos ananases e mais as suas latas fumegantes. Fora-nos obrigatório, passear pela produção do chá, dias após uma estação televisiva lusitana, ter lá ido gravar cenas para uma telenovela qualquer... E não poderíamos nunca regressar ao Continente, sem ter conhecido Vila Franca do Campo, Povoação e a Ribeira Grande. E cantar aos gritos o: “Ponha aqui o seu pezinho”, para visível horror de alguns dos seus habitantes muito ciosos das suas tradições. E a visita às Furnas e ao Parque Terra Nostra também fez parte do conjunto do pacote, ah pois foi! E as Bibliotecas Públicas que também foram visitadas! E as igrejas, senhores!… Tiveram que ser vistas por dentro e por fora, e na sua grande maioria!
Nesses locais de culto, para além entrarmos, nós tivemos (porque tivemos mesmo, vai-se lá saber porquê?), a necessidade de passear pelas suas traseiras. Nada mais adequado para quem pretende conhecer uma terra, efectivamente. Conhecer a parte de trás das igrejas… Pois… se calhar (e quando eramos novos), devemos de ter apanhado muito sol na moleirinha, foi o que foi! E o consumo dos granizados Fá, meus amigos! Esses, também não deveriam de ser… lá muito saudáveis.
Pois fora justamente numa certa e determinada igreja, que eu tomo a dianteira e dirijo-me para esse tal local traseiro, só levemente mais obscurecido. E no processo eu sinto que uma mão amiga me retém, na intenção de impedir o meu tão gracioso… caminhar. Que depois me avisa, de que eu não devo de ir para ali, porque estaria lá um casal… a namorar.
E, eu penso: “Mas que pudica é que está a M., Santo Deus!” É que eu tenho a ideia, de que o que eu mais vi na minha vida, foram pessoas aos beijinhos e aos apalpões pelas ruas e pracetas deste mundo. E… abençoados! Pelo que muito determinada, eu lá prossegui.
Bem… o que eu ali vi permanecerá para sempre na minha mente. No local que eu reservo para as coisas mais inusitadas. De entre todas aquelas coisas inusitadas que me foram dadas a observar na vida. Pois ali eu vi um jovem deitado no chão. O seu traseiro desnudado, estava erguido ao vento e sacolejar-se muito ritmadamente. Era mesmo muito níveo e exuberante. Tal qual uma imensa vela branca de uma qualquer canoa. Por debaixo dele, estava uma jovem que muito gemia, coitada! Não sei de devido ao acto em si, se devido a alguma pedra da calçada, que entretanto se lhe havia incrustado nas suas carnes traseiras. E ali estavam os dois naquilo, na maior das calmas. Com pessoas a passar que aparentemente não estranhavam nada daquela ocorrência… Logo atrás deles, estava construído um prédio mediano, cheio de enormes e envidraçadas janelas. Pelo que boquiaberta, eu pensei: “Mas que belo espectáculo, se está a dar aqui! Sim senhores! E passível de ser visualizado nas suas mais diversas perspectivas…”
Os moradores daquele prédio tiveram assim direito a uma peça teatral gratuita. Se calhar até já nem seria a primeira vez! Os passeantes também. E eu fiquei com mais uma belíssima história para contar. Só que fiquei também convencida, que por mais que o tempo passe, ainda não devemos de estar assim tão afastados, dos tempos… do uga-uga.
Sugestão de leitura para esta semana: “Os Prazeres do Amor - História de D. Catarina de Bragança” de Jean Plaidy.
DIVIRTAMSEMAZÉ!



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