Esta coisa do amor é bastante complexa. E chega a ser algo bastante incompreensível, mesmo. Como surge? Quando nasce? Senti-lo por uma pessoa e não por outra? Senti-lo pela pessoa mais inadequada do mundo? E achar-se que era justamente com essa pessoa, que se seria muito feliz! E para todo o sempre! Quando e… (se a coisa se realizasse), havia de ser o bom e o bonito! O que vale é que passado algum tempo… a coisa lá acaba por passar. E siga a fila!...
E a demonstração dos afectos tem
acontecido ao longo de toda a História da humanidade. E é por isso mesmo… que
nos é possível… ter História. Nos tempos recuados da Pré-História, que é
justamente todo o período anterior ao aparecimento da escrita, a coisa devia de
ser mais ou menos informal. E a prática foi exposta inclusivamente nas paredes,
em pinturas rupestres de elevado sentido estético e explicativo. Não será mesmo
nada de estranhar, que a coisa se fizesse sem o necessário (aos nossos olhos),
acordo de uma das partes. E é com facilidade que eu imagino o seguinte:
A mulher andava atarefada na
gruta. Empurrava para a rua os restos da última refeição: destroços de ossos e
partes das vísceras de animais (das que a família não apreciava muito), com uma
vassoura. Vassoura que fora conseguida através do corte de um imponente ramo de
árvore. Em cima da pele, a dama teria somente uma outra pele (mas de animal
irracional), que se seguraria em si, apenas devido à execução de alguns nós e
costuras muitíssimo rudimentares. O uso daquela vestimenta desafiaria a todo o
momento a própria Lei da Gravidade. E a mulher primitiva, lá ia andando naquela
sua lida. Abanicando suavemente o seu traseiro, ora para um lado, ora para o
outro. Quando se baixava, deixava mesmo a descoberto… grande parte das suas
vergonhas (que era como a minha tia se referia à parte externa do aparelho
reprodutor feminino). E quando o homem chegava da caça, arrastando atrás de si
um animal de médio porte, é que a coisa se poderia dar. Não será de todo
displicente, imaginar o homem a pegar à força a mulher e a executar o acto
sexual ali na gruta. Ou mesmo fora dela, quando a mulher viesse de realizar uma
outra azáfama qualquer. Fosse ela apanhar a salsa ou a hortelã… O abuso poderia
também dar-se com um vizinho, que também, corria o risco de ficar com o seu
apontador pessoal… em riste, mal avistasse a sua vizinha jeitosa. E a função dar-se-ia
mesmo, ao som de um enigmático uga-uga, corresponsável pela vinda (ou não), de
um rebento, sensivelmente nove meses após tais ocorrências.
Muitos anos passados, e vêm a
época da descoberta e da difusão da escrita. A possibilidade de se comunicar à
distância (com o transporte do suporte da escrita) aumentaria sensivelmente. É
também muito mais fácil, transmitir o conhecimento da altura para épocas
vindouras. Surgiriam as chamadas sociedades Pré-Clássicas onde o amor aconteceria
também com alguma naturalidade. É que fora sempre necessário garantir a
perpectuação da espécie. Pelo que, Sumérios, Assírios e Egípcios, foram-se
amando entre si, para contentamento de todos. Ou pelo menos para alegria de todos
aqueles… que tinham mais sorte.
Advém a Época Clássica. Com os
gregos e mais as suas prédicas filosóficas. Surgiria assim também uma nova
definição de amor. Que estaria de acordo com aquilo que o amor para eles
significava. Assiste-se à assumpção de uma sociedade, onde a vida pública era
garantida pelas acções efectuadas maioritariamente pelos seres que pertenciam
ao sexo masculino. Aparece a ideia de “amor” agregada de alguma maneira, à
ideia de transmissão de conhecimento e de sabedoria. O acto em si, para além de
proporcionar prazer (desejavelmente), fazia com que os seres se ligassem
através de laços à partida pouco compreensíveis aos nossos olhos de seres
viventes do século XXI. Onde o homem velho, que tinha sabedoria deixada pela
experiência de vida e aquisição de conhecimentos, se alicerçava ao jovem, que
sem ter ainda grande sabedoria, pois ainda não havia tido muito tempo para tal,
tinha a beleza da juventude. Ou seja, aquela ligação era completada pelas
faltas de um em relação ao outro. E a inversa também era verdadeira. Só que
assim não nasciam meninos, não é?
Aí mulher era tida somente, como
o “receptáculo” capaz de gerar a vida. E geraria assim (ou não), um jovem que
poderia fazer as delícias de um homem mais velho, ou mesmo idoso. De um sábio
por definição. A noção de pedofilia acabaria por não ter aqui grande
oportunidade. Já que a “coisa corrente” era tida como normal. Bem…
Vêm os Romanos e mais os seus
bordéis. A mulher (e a das classes dominantes) era tida como a que pode
disfrutar, tal qual o homem do prazer do sexo. Estaria contudo e ainda, num
patamar bem inferior ao do homem. E como em todos os tempos, existiram também
muitos homens e mulheres, que apreciavam muito a companhia e a acção de outras…
pessoas do mesmo género que o seu…
Advém o Cristianismo. Surge a
noção de que se deve de amar o outro como a si mesmo, e a Deus sobre todas as
coisas. A monogamia surge também como acto preferencial. E o lema: “crescei e
multiplicai-vos”, acaba por transformar-se num verdadeiro… mantra. E quanto a
manifestações amorosas? Bem, tudo indica que atendendo às circunstâncias, as
mesmas deviam de ser praticadas... com um certo decoro. A par de tudo isso, vão-se mudando
outros paradigmas, de acordo com os movimentos da conversão à Nova Lei.
Depois surgiria o amor cortês.
Adviria a Idade Medieval, e a vida fora das cidades. Criaram-se novos e
diversos aglomerados populacionais. Assim como foram construídas, alguns dos
grandes edifícios religiosos, tais como conventos e catedrais. Paralelamente a
isso, aconteceram e continuariam a acontecer, os casamentos por conveniência. E
a poesia trovadoresca surgiu, e deu algum colorido, à própria noção de amor.
Pelo percurso, ficaram conceitos apenas aproximados, ao amor tido como natural
na contemporaneidade. E para todo o sempre, perduram os versos do homem que
cantou à humanidade, todo o amor que sentiu por determinada mulher. Que na
grande maioria das vezes, até lhe era inacessível. E quem é que não gosta (e só
uma vez por outra), de ouvir relatar um amor contrariado e impossível?
Por outro lado surgiram relatados
os afectos vividos pelas mulheres. Só que era sempre o homem que versejava,
claro está. Mas nesta circunstância, fazia-o como se se tratasse de facto de uma mulher. Nessas
Cantigas de Amigo, falava-se dos sentimentos delas. Sentires que eram por
definição, sofridos, recônditos e quase inconfessáveis…
E o amor? Acontecia de facto? Na
grande maioria das vezes, ele não deveria de passar do papel. Já que outras
pessoas, (mais concretamente os seus familiares mais crescidos), haviam
previamente determinado um qualquer casamento ideal para o seu descendente.
Casamento profícuo onde se enleava na perfeição, a junção de riquezas
abundantes e/ou situações de poder.
Vêm o Renascimento, e a
recuperação de muitas das premissas do que havia caracterizado a Época
Clássica. Vem depois a época do Iluminismo, com o homem a exceder-se a ele próprio.
O excesso e o grandioso foram ali temas bastante apreciados. Surgiram as cortes
do Rei Sol, a imponência e todo o glamour… de Versailles, a Maria Antonieta, o
luxo, o vício e os disfrutes correspondentes…
Seguir-se-ia o século XIX e o
Romantismo. Vem a ideia de que o amor é correlacionado a algo periclitante e
capaz de tirar o sono e a energia a quem dele pudesse padecer. Amar
significava… sofrer. Só quem sofresse, demonstrando profundíssimas feridas no corpo e… na alma, é que amava verdadeiramente. E morria-se… de amor! O
cenário aconselhado era o das sombras e da negritude. Que num jogo encoberto,
trouxera para a ribalta o amor sofrido, contrariado e impossível. E se assim
não fosse… já não tinha qualquer graça, definição ou oportunidade. Naturalismo, Realismo... Hellas!…
Depois veio o século XX com todas as
suas numerosíssimas invenções tecnológicas. A vida gradualmente tornar-se-ia
mais confortável, para um número crescente da população. Se bem que também foi nesta
centúria, que se deram as guerras mais terríficas e globalizantes. Que vitimaram
tantos milhões…
Foi o século em que a comunicação
se tornou muitíssimo mais eficaz. E os mais variados conceitos espalharam-se assim…
como o vento. E com eles, deu-se também a ampla difusão de termos e formas de
amar, através das novas formas de se comunicar. Os meios de comunicação
trouxeram, para além do facto de aproximarem realidades muito distantes entre
si, a de terem demonstrado que o que é vivido num espaço no que concerne a
afectos, é capaz de ser semelhante ao que acontece numa outra latitude
diametralmente oposta. E se não é idêntica, poderá muito bem passar a ser. Pois
acaba por “trazer à baila” a difusão de novas realidades que poderão
eventualmente… ser levadas em linha de conta. E até à prática…
Mas vendo bem as coisas, no
fundo, parece-me que os que nada tiveram de seu, se calhar e em todas as épocas, foram os que
puderam ter mais liberdade para amar. Muitas vezes nem tiveram a possibilidade
de firmar institucionalmente, a sua ligação no efectivo contrato. E uma vez que eles eram “assim tão
pobrezinhos”, juntavam qualquer trapinho roto que tivessem, àquele/a que também
reunisse, essa mesma [sua] condição.
Pois, o tema amor foi algo que
atravessou transversalmente toda a vida do homem na terra. Terá necessariamente
variantes de acordo com o tempo que se vive. Mas a relação homem/mulher é
velha, perdura e aconselha-se até muito… que tenha futuro. Só desta maneira é
que se podem reunir condições para se evoluir. E o progresso (ou até mesmo o
retrocesso actual), tornar-se efectivo. Tendo como base… o truca-truca.
Pois vem todo este arrazoado de
lugares comuns (porventura pouco interessante e quiçá até maçadores), a
propósito de algo que eu testemunhei já há alguns anos atrás. O passeio dava-se
na Ilha de São Miguel, Açores. Fora-nos necessário, calcorrear os inúmeros e
lindíssimos lagos e lagoas que por ali abundam. Fora-nos imperioso, observar…
todas as flores, plantas e leguminosas. E muitas vacas, nós conhecemos, meus miguinhos!
Fora-nos fundamental, ir conhecer as plantações dos ananases e mais as suas
latas fumegantes. Fora-nos obrigatório, passear pela produção do chá, dias após
uma estação televisiva lusitana, ter lá ido gravar cenas para uma telenovela
qualquer... E não poderíamos nunca regressar ao Continente, sem ter conhecido
Vila Franca do Campo, Povoação e a Ribeira Grande. E cantar aos gritos o:
“Ponha aqui o seu pezinho”, para visível horror de alguns dos seus habitantes
muito ciosos das suas tradições. E a visita às Furnas e ao Parque Terra Nostra
também fez parte do conjunto do pacote, ah pois foi! E as Bibliotecas Públicas
que também foram visitadas! E as igrejas, senhores!… Tiveram que ser vistas por
dentro e por fora, e na sua grande maioria!
Nesses locais de culto, para além
entrarmos, nós tivemos (porque tivemos mesmo, vai-se lá saber porquê?), a
necessidade de passear pelas suas traseiras. Nada mais adequado para quem
pretende conhecer uma terra, efectivamente. Conhecer a parte de trás das
igrejas… Pois… se calhar (e quando eramos novos), devemos de ter apanhado muito
sol na moleirinha, foi o que foi! E o consumo dos granizados Fá, meus amigos!
Esses, também não deveriam de ser… lá muito saudáveis.
Pois fora justamente numa certa e
determinada igreja, que eu tomo a dianteira e dirijo-me para esse tal local
traseiro, só levemente mais obscurecido. E no processo eu sinto que uma mão
amiga me retém, na intenção de impedir o meu tão gracioso… caminhar. Que
depois me avisa, de que eu não devo de ir para ali, porque estaria lá um casal…
a namorar.
E, eu penso: “Mas que pudica é
que está a M., Santo Deus!” É que eu tenho a ideia, de que o que eu mais vi na
minha vida, foram pessoas aos beijinhos e aos apalpões pelas ruas e pracetas
deste mundo. E… abençoados! Pelo que muito determinada, eu lá prossegui.
Bem… o que eu ali vi permanecerá
para sempre na minha mente. No local que eu reservo para as coisas mais
inusitadas. De entre todas aquelas coisas inusitadas que me foram dadas a
observar na vida. Pois ali eu vi um jovem deitado no chão. O seu traseiro desnudado,
estava erguido ao vento e sacolejar-se muito ritmadamente. Era mesmo muito níveo e
exuberante. Tal qual uma imensa vela branca de uma qualquer canoa. Por debaixo
dele, estava uma jovem que muito gemia, coitada! Não sei de devido ao acto em
si, se devido a alguma pedra da calçada, que entretanto se lhe havia incrustado
nas suas carnes traseiras. E ali estavam os dois naquilo, na maior das calmas.
Com pessoas a passar que aparentemente não estranhavam nada daquela ocorrência…
Logo atrás deles, estava construído um prédio mediano, cheio de enormes e
envidraçadas janelas. Pelo que boquiaberta, eu pensei: “Mas que belo
espectáculo, se está a dar aqui! Sim senhores! E passível de ser visualizado
nas suas mais diversas perspectivas…”
Os moradores daquele prédio
tiveram assim direito a uma peça teatral gratuita. Se calhar até já nem seria a
primeira vez! Os passeantes também. E eu fiquei com mais uma belíssima história
para contar. Só que fiquei também convencida, que por mais que o tempo passe,
ainda não devemos de estar assim tão afastados, dos tempos… do uga-uga.
Sugestão de leitura para esta
semana: “Os Prazeres do Amor - História
de D. Catarina de Bragança” de Jean
Plaidy.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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