Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 5 de novembro de 2011

Livros excursionistas.


Quem tem mais de trinta e cinco anos lembra naturalmente as velhinhas carrinhas da Calouste Gulbenkian. Estas traziam os livros às terras desapossadas de Biblioteca Pública. Eu lembro-me disso muito bem. Todo aquele processo era mágico, havia a espera, depois o fascínio de escolher novos livros entregando os que já haviam cumprido a sua função. Na requisição havia o preenchimento de um pequeno impresso que atestaria a morada temporária daqueles "objectos encantados". Sempre achei todo aquele processo fantástico, nós a escolhermos os livros... bem, há quem teorize que são os livros que nos escolhem a nós.
Por um determinado tempo aqueles livros acompanhavam a nossa existência, testemunhavam de alguma maneira as nossas vivências. Eu mesma pensava que por algum tempo, eu também seria a "dona" daqueles "seres comunicantes", os mesmos que já haviam "pertencido" a inúmeras pessoas, que os haviam lido, se deliciado e depois haviam cumprido a obrigação de os entregar à procedência. Este gosto acompanhou-me mas... nem sempre eu achei muita graça à leitura em si. Acredito que a leitura (e o gosto pela mesma) deriva de um  processo muito complexo.
Quando eu era muito nova (seis, sete, oito anos), eu era uma rapariga ladina que ia com toda a desenvoltura de mão dada com o meu pai buscar livros às carrinhas da Gulbenkian. O meu pai pertencia ao operariado, como habilitações literárias tem somente a instrução primária. Contudo havia algo que o distinguia e bem de grande parte da população pertencente ao seu extracto social/económico, o meu pai tinha (e felizmente ainda tem) um enorme amor pelos livros. Sempre foi assim desde criança, o seu pai também já havia sido um bom leitor. O meu pai é só o maior leitor compulsivo que eu conheço. Ele lê tudo e quando eu falo tudo é tudo mesmo, inclusivé este meu singelo blogue, pois tem ligação à Internet vai para dez anos.
Escusado será dizer, que como pai desta filha única e ladina, desde sempre ele tentou que eu tivesse uma paixão pelos livros idêntica à sua, mas o processo não foi fácil. Para mim eram bem mais atractivas as actividades como as brincadeiras na rua, na companhia de enormes bandos de crianças pequenas, gozando da maior liberdade que se possa congeminar. 
Mas o pai queria que eu lesse e eu fazia-lhe a vontade e como ficava contente de me ver de livro na mão! É claro que eu gostava de ir buscar livros à carrinha, só que os mesmos tinham que ter um simples requisito: tinham que ter o menor número possível de letras e consequentemente o menor número possível de palavras. Assim os cinco livros que era possível requisitar e por mim eram escolhidos, eram lidos nos dois dias seguintes ao acto da requisição. Depois eram ordenados na estante e no lugar próprio para eles e até ao regresso da carrinha a minha intenção era  não falar mais sobre aquele assunto. Contudo o meu pai enquanto lia os seus, perguntava-me a minha opinião sobre os livros que eu havia trazido e, fazia mais ainda aquele magano, depois de ler os seus livros de adulto, ia ler os livros que eu havia requisitado, apontando depois o seu titulo e autor num velhíssimo porém precioso caderninho de anotações de leituras.
Bem mas isso não me preocupava nada é certo, e a vida lá ia decorrendo na maior e mais alegre naturalidade. E os meses foram-se passando. Mas certo dia algo acabou com a placidez e facilidade das minhas leituras descomprometidas, pois surgiu um personagem que mudaria para sempre o curso daquelas minhas secretas intenções. E quem era o ladino? O técnico/condutor da Biblioteca Itinerante. Este já andava desconfiado da minha "preguicite aguda" no campo das leituras e num certo dia, num assombro repentino chegou ao pé de mim e disse: "Minha menina, a partir de agora acabaram-se estas leituras para si. Daqui para a frente, a minha amiga vai escolher destes livros daqui" (apontando para outra prateleira que continha livros dedicados à faixa etária que inclui a fase da adolescência). E mais disse aquele "mui prestável" senhor: "E a primeira sugestão de leitura quem lha faz sou eu!" Apresentando-me de imediato o livro: A Cabana do Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe. Fiquei sem pinga de sangue, saltou-me tudo em cima e por mais que tentasse, não arranjava desculpa capaz para recusar tão "prodigiosa dádiva". A partir dali a coisa "piava muito mais fino". Agora já não levava comigo a historieta dos patinhos malandrinhos, do cãozinho carinhoso, dos palhaços trapalhões nem das varinhas de condão. Agora a minha narrativa era bem diferente. A história do Tomás é sobejamente conhecida. Trata-se do relato de algo tão obscuro e tenebroso como é a condenação perpéctua do ser humano à condição de escravo, só porque nasceu com uma coloração de pele mais para o carregado.
Eu peguei no livro, que depois li e senti-me atrapalhada, afinal a vida de muita gente era bem mais complicada que aquela que eu havia tido a sorte de ter, rodeada de cuidados e carinhos de uns óptimos e muito competentes pais. Afinal havia gente que nada tinha. Havia gente que pagava com a própria vida por pensar de maneira diferente. Eu antes daquela leitura, ainda não havia tido grande oportunidade de pensar nessas coisas, pois como a generalidade das crianças e adolescentes daquele tempo eu preferia mesmo era correr, saltar, fazer maroteiras e  continuar a ser criança (de preferência para todo o sempre). Aquele senhor contudo teve uma particularidade muito ímpar na minha vida, já que com aquela simples e oportuna sugestão, conseguiu acordar em mim uma consciência que permanecia inerte.
As minhas leituras continuaram e aqui vou ser franca, eu ainda continuei a  aproveitar o momento em que o técnico estava mais para o distraído, para juntar alguns  livros "menos trabalhosos" à minha lista de requisições, mas também fui fazendo outras escolhas. Depois há uma altura em que o  processo é irreversível, e em que se diz não ao facilitismo e se empreende por algo mais complexo.
Hoje leio muito, não tanto como o meu pai esse vence-me literalmente. É com muito prazer que recordo aqueles tempos e é ainda com muito mais prazer que converso sobre leituras com o meu progenitor. Oxalá o consiga fazer por muitos anos.
Sugestão de leitura: "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera.
Boas e gratificantes vivências (apesar da crise) e... divirtamsemazé.




1 comentário:

365gulosos disse...

É lindo ver uma filha a falar tão "babadamente", de seu pai. Ele fez uma excelente trabalho, tanto como o técnico e claro sua mãe! Afinal quem pensa que os técnicos de biblioteca só servem para não fazer nada, bem se engana! Também li "a Cabana", "O romance da raposa", entre outros! Só assim é que se desenvolve a língua! Mas gostei deste post, porque é muito lindo ver uma filha a elogiar o Pai!