O dia prometia. No ar havia a
promessa de que iria acontecer… um grande “combibio”. Isto porque as pessoas, muito
contentes por terem participado numa excursão organizada, e com destino à Asia
Central, acharam por bem rever-se novamente. Mas essas pessoas excursionistas, muito
agradadas que estavam com a companhia umas das outras, não chegavam para ocupar um
autocarro. Só que naquela manhã ensolarada de Outubro, contudo havia a presença de
tanta gente... que ocupavam... mais um outro autocarro. Mas de onde é que viera tanta gente? E iria comemora-se exactamente mais
o quê?
Salette Sampaio mais o seu pai
recém-viúvo também acederam ao convite. Salette, uma tal que também havia viajado na outra
excursão. A mesma que também lhe havia deixado gratas e inesquecíveis recordações. O pai, esse ia mais como
penetra. Sempre era uma forma de sair de casa e conhecer gente nova. Ou nem tão
nova assim, mas que ele ainda lhe desconhecesse a existência.
E para além de Salette ia também
a Engrácia Maria, também ela quarentona, e a pedir meças à condição de novas e
muito gratificantes aventuras.
No dia anterior contudo, Rodolfo
José, o organizador daquele programa de festas, telefonara a Salette. “Pois”,
dissera-lhe ele, “que lamentava muito, mas as coisas não podiam acontecer como
haviam sido previamente combinadas”. Os motoristas afinal não seriam os que
eram para ser, pelo que assim... lhes desconhecia o contacto. Pelo que os mesmos, iriam somente a
duas ou três das quatro paragens que estavam previamente combinadas. Pois que a Salette
tivesse paciência e que viesse ter com os outros todos, à povoação de
Alguidares de Cima e Capela. Lá estariam todos de braços e de garras muito abertas
para a receber. Salette torceu logo ali o nariz. Ela detestava que lhe
trocassem as voltas. Ainda mais depois de um desgosto tão grande. O pai,
coitadito, lá continuava a carpir as mágoas. “A sua santinha fizera-lhe tanta falta!”
Ainda para mais, agora tinha forçosamente que ir de "rojo" com a filha até à
povoação dos Alguidares, que até ficara destituída da sua rica Junta de
Freguesia.
Só que Rodolfo José não se desmarcou.
Se tivessem assim tantos problemas, ele próprio os iria ali buscar. Nada de
mais, atendendo à circunstância de que fora justamente o Rodolfo José quem se
metera em tais assados. E se se metera em tal, ele teria que ter mais alguns ganhos, é
que trabalhar para aquecer, não era agora nem nunca. E começou a telefonar aos
outros excursionistas, dizendo-lhes que tivessem paciência, e que fossem buscar
Salette Maria mais o seu pai ainda tão choroso e magoado.
No dia da festa, reúnem-se as
hostes. Salette Maria mais o seu pai ainda conheciam alguns dos que não haviam estado
na Ásia Menor e na Ásia Maior. Contudo Engrácia Maria só conhecia um ou outro e alto lá. Depois de
visitadas as outras duas capelinhas previamente aceites pelos motoristas, lá se
reúne todo um excelente conjunto. E que belo conjunto ali se reuniu! A próxima paragem prometia.
Era exactamente a Terra dos Piços. Mais concretamente aquela que tem umas
termas medicinais, tornadas famosas pela tal rainha que estava de passagem e se
encantara realmente pelos efeitos benéficos prometidos por aquelas águas termais. E que
belas canecas por ali existem! Com objectos perfuradores colocados erectamente lá dentro. Conforme se
bebe, assim pinga no nariz.
A viagem começou com muita e
saudável (duvidosa) animação. Primeiro a excursionista mais velhota, começou para ali a
cantar uns salmos. Depois disso, uma só um pouquito mais nova, que era também uma forte adepta do
Sporting, começou para ali a cantar a plenos pulmões o hino do seu clube do
coração. Só que pouco ou nada tinha da Maria José Valério. E muito menos com a
Maria Callas, que ela insistiu também ali em ofender a memória. E como ela insistia, senhores! E vai
de dar agudos para trás e para a frente e com muitíssima determinação. Salette,
a tal que estava danada desde o dia anterior, franzia a cara em dezassete.
Engrácia, coitada pressionava os tímpanos e maldizia a sua sorte. O pobre
viúvo, também já não sabia de que terra era. Depois foi a vez da tal sportinguista
insistir nas anedotas, que levava diligentemente escritas num caderninho a rigor. E de "graça"
em "graça", ela lá ia arrancando um ou outro bocejo, ou então um ou outro sorriso
amarelo canário. Às tantas ela arriscou: “Sabem mesmo o que é um cigarro, queridos convivas?”
“Ninguém sabe”, continuou ela para ali a dizer até ao limite do impossível. “Pois é um
cilindro, que tem lume numa ponta e um idiota na outra”. E depois disso, ela ficou para ali a rir
sozinha numa cor muito escarlate devido a tanta emoção.
Mais para o meio do autocarro ia
Clementina na companhia do seu "rico" esposo. Eles que fumavam mais ou menos desde a pré-primária.
E prefiguraram os dois ali, a personificação de dois dos idiotas. E isto, sem
querem ou terem sequer solicitado tal classificação. “A coisa prometia mesmo”,
pensava assim toda a gente.
Na cidade das Caldas, da tal Rainha,
parou-se numa igreja muito antiga. Só que ninguém estava minimamente preparado
nem para rezar, nem para fornecer ali qualquer informação suplementar. Mas mesmo assim saíram
todos, depois de manifesto esforço por parte daqueles que eram mais coxos
e inevitavelmente menos ligeiros. E lá foram eles todos para a igreja. Onde também
andavam pendurados, uns dois ou três restauradores, que viram assim aquele “seu” espaço
invadido, por hordas de gente que procurava tudo, menos aquilo que fazer.
Saídos do espaço, voltam uma vez
mais bem enfileirados para o autocarro. Com as mesmas pressas do costume. E a volta seguinte
era andar por ali, de autocarro a ver o mar e mais três ou quatro árvores. Com
a sportinguista a gingar as ancas em perfusão e a continuar a dar azo ao seu
ego tão inflamado.
E depois visto que estava o mar,
mais as três ou quatro árvores, seguir-se-ia o restaurante. Que estava inserido
numa enorme quinta e sem que tivesse mais nada à volta. E aquilo nem sequer
era uma excursão de vendas, senhores! Porquê então um tão grande isolamento?
Na quinta iniciaram-se depois as
hostilidades. Ali os grupos eram mais do que muitos. Todos à espera de vez.
E conforme se iam despachando do “rissou e do cocrete”, e do espumante nacional,
passavam para uma sala imensa, cheia de mesas de doze lugares. Pois aquilo teria
que ser tudo cheio, claro estava.
Salette ficou com o pai e a sua
amiga Engrácia. Ao lado de mais dois ou três conhecidos. E os outros? Haviam de
se conhecer futuramente. Assim houvesse para tal... disposição.
O viúvo rezava pela alminha da
que já lá tinha. Salette e a amiga esperavam uma sopa de peixe, que se fizera
anunciar. Nada má, mas também nada de excepcional. É que era tanta gente. Como
é que se consegue cozinhar com esmero para tanta, mas tanta, alminha exuberante?
Depois vieram outros peixes. E
depois as carnes. A sobremesa. E o vinho de fraca qualidade também por ali circulava.
Na mesa do lado, contrariamente ao espectável, circulava um mui sofrível vinho
verde. Naturalmente ao contento da sportinguista, que quando se lembrava, se
levantava do seu sítio e se punha a dançar de pernas bem abertas, de mãos no ar e a
cantar: “Rapaziada, oiçam bem o que eu vos digo, e digam todos comigo: Viva o
Sporting!” Cantava ela rejubilantemente, só que sempre sozinha. Mas porque seria?
Na mesa do outro lado, os
ocupantes riam a bom rir, depois dos segredos de um empregado de mesa, muito
pequenino e com um farfalhudo bigode. Sorrateiramente ele lá se lhes ia dirigindo. E atempadamente, os convivas tiveram oportunidade de se inteirarem de
informações tão importantes como: “Arroz é de que género? Masculino ou feminino?”
Pois… também ali ninguém sabia. Resposta pronta daquele muito impetuoso ser de avental preto:
“Pois depende, meus amigos: se for de tomate, é menino. Mas se for de grelos”… vocês
já sabem qual é a resposta, não é verdade?
“E o peixe mais forte que existe
no mar?” Continuava o tal descarado. Seria o Tubarão. A Baleia Esbranquiçada? Ou a Orca? “Pois
que não”, respondia o tal senhor estouvado. “É o bacalhau, porque depois de
morto, ainda lhe fazem uma punhet@. Esclarecidos assim ficaram todos aqueles
convivas. Esclarecida fiquei também eu. Assim como os meus riquíssimos leitores. E quem
é que é amiguinho, quem é?
E ao repasto de fraca qualidade
seguir-se-ia o baile da praxe. Num canto estavam os visitantes da Asia. Nada
estava a ser como o que lhes havia sido prometido. Mas o que é que era aquilo,
senhores? O Baile do Entrudo? Mas estava-se ainda no mês da República Desconsiderada.
No palco, um senhor obeso, estava
repimpadamente sentado atrás de um pequenito órgão. E depois de iniciados três
ou quatro acordes, começou a cantar, com uma voz de falsete, grande parte das
músicas pimba da actualidade. E também as do antigamente. Todas as músicas pimba da
actualidade. Todas as músicas pimba… do antigamente. O importante mesmo, era
por todo aquela gente a dançar. Ainda por cima, logo após tão substancial
repasto…
Ao largo ouvia-se ainda uma voz velhinha,
desditosa e persistente que gritava: “Só eu sei, porque não fico em casa!” Pois.
Tivessem uns e outros… toda essa certeza!?
Cá fora ainda se juntaram os tais
“asiáticos” algo frustrados. Conviveriam ali. Era o que lhes restava. E falaram
das agruras da vida e do preço excessivo do pitroil.
E de uma e outra temática igualmente aliciante.
E depois de bastante tempo
passado, também já estava o baile acabado. Seguir-se-ia o lanche ajantarado. Revelando
os convivas uma voracidade já algo mediana. E da recolha sumária por parte de
alguns, de bolos e de pão que fazia muita falta lá em casa. É que comer sempre
se come todos os dias. Pelo menos é o que desejavelmente deve acontecer. E
depois de muitos beijos e abraços, que regressaram mais uma vez… ao meio de
transporte colectivo.
Engrácia para terminar ainda
perguntou ao senhor Cinzento, seu colega no banco da camioneta, se ele havia
gostado do convívio. “Sim!”, foi a resposta imediata e satisfeita que ela obteve. “Isto corre
sempre tudo muito bem. Logo a mim, que já sofri tanto na vida. Que já tive que
fingir tantas vezes… que estava tudo bem!”. Perante isto, Engrácia ficou
convencida que existem pessoas que procuram na desventura, uma explicação determinada
para o destino que lhes coube em sorte. Efectivamente seria muito pior, se o
senhor Cinzento fosse acometido… por uma trombose qualquer.
E finalmente… e finalmente senhores,
veio o regresso à casinha. E à boa vida efectiva.
Sugestão de leitura para esta
semana: “A Doida do Candal” de Camilo Castelo Branco.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

1 comentário:
Pois, também fui a esse sacro almoço. Viajei no outro autocarro ... mas o e a animador(a) estava(m) no mesmo patamar.
Engraçado .... engraçado é o s/ texto, se, na altura, o enfado reinou, hoje dei umas valentes gargalhadas, e, agora, até parece que não foi o desastre, que. efectivamente, até foi. Parabéns pela magnífica prosa. Filipe Carvalho
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